sábado, 3 de novembro de 2012


Visões do projeto da transposição do rio São Francisco por especialistas da área.


Opinião de Cassio Borges sobre o projeto da transposição do São Francisco, relatada a Apolo Heringer, idealizador do Projeto Manuelzão, seguidos de comentários dos engenheiros hidrogeólogos José do Patrocínio Tomaz Albuquerque e Manoel Bomfim Ribeiro e de outros especialistas da área.

COMENTÁRIOS

Apolo Heringer Lisboa

Tenho aprendido muito com todos vocês, o debate da transposição é um antídoto ao Alzheimer, mexe com todos os neurônios. Pode ver que nossa turma está 100% lúcida.

Apolo Lisboa é Idealizador e co-fundador do Projeto Manuelzão/Rio das Velhas

Professor da Faculdade de Medicina/UFMG

http://lattes.cnpq.br/8584595137405086

Blog: http://www.apoloheringerlisboa.wordpress.com

31 - 9941-2171

Cássio Borges

Esta história sobre a Transposição de Vazões do Rio São Francisco é muito longa.

No início, o DNOS queria tirar do Rio São Francisco 320 metros cúbicos por segundo. Acho que "eles" não sabiam o significado do "metro cúbico por segundo". No mesmo instante, ao contestar tal número, advoguei (como sempre vinha fazendo) 50 metros cúbicos por segundo, o equivalente, como dizia, a vazão regularizada de cinco açudes do porte do Orós. A meu ver mais do que suficiente para atender a nossa Região em épocas prolongadas de secas (três e até sete/oito anos consecutivos como já ocorreram no passado). Passei a defender insistentemente esta idéia e fui considerado como sendo um ferrenho opositor ao Projeto. Pobres coitados. Mas eu os desculpo porque nunca viram sequer a capa de um livro de hidrologia. Veio o Ciro Gomes e baixou a vazão para 26,00 m3/s e somente na hipótese do Açude Sobradinho estiver cheio que seja retirada uma vazão bem maior.

No meu entendimento, esta vazão bem maior seria no caso os 50 m3/s e não 120 m3/s como diz o referido Projeto. O pior que estão construindo uma canal para transportar 120 m3/s, cuja vazão nunca será acionada por motivos óbvios. Tem outros erros no projeto definitivo que caberia numa página inteira para comentar com o prezado amigo. Mas não vou roubar o seu precioso tempo. Acho que ainda tem muito o que se discutir a este respeito.

Um grande abraço do amigo

Cássio Borges - borgescassio@hotmail.com

José do Patrocínio Tomaz Albuquerque

O Dr. Cássio tem essa qualidade: é um defensor ferrenho do DNOCS, órgão onde ele exerceu sua profissão de Engeneheiro Civil, tendo participado, suponho, direta ou indiretamente, das realizações daquela instituição, com destaque para a construção da grande maioria dos grandes reservatórios de águas fluviais que hoje existem no Semi-Árido nordestino. O que querem fazer com os seus servidores, ativos e aposentados, pelo que se depreende de seu artigo publicado no jornal O Povo, de Fortaleza, é uma ilegalidade e um desrespeito à Constituição, em uma de suas cláusulas pétreas, o artigo 5º, Inciso XXXVI que trata do direito adquirido. Para mim, este artigo é o que caracteriza melhor o "estado democrático de direito". Sem ele, ficamos a mercê das vontades, veleidades e idiossincrasias dos mandantes de plantão, cujas decisões podem ser revogadas por seus sucessores, instalando-se o caos jurídico. Ele, o Dr. Cássio, tem a minha total solidariedade nessa sua luta.

Mas, vamos ao assunto a que o amigo me pede a opinião. O Dr. Cássio misturou um pouco as coisas, confundindo o Nordeste como um todo com a sua região semi-árida, ao afirmar, inicialmente, que "no Nordeste não existe água subterrânea razoável" (acho que ele se refere à quantidade), tomando como exemplo o Estado do Ceará. O Ceará não serve como exemplo da ocorrência de água subterrânea no Nordeste, pois as suas condições hidrogeológicas não refletem a média das águas subterrâneas nordestinas. O Ceará, reflete melhor as condições hidrogeológicas da região semi-árida nordestina, de vez que, em seu território, predomina o Sistema Aqüífero Cristalino, de potencial quantitativo muito pequeno, localizado em zonas fraturadas e/ou alteradas dimensinalmente limitadas e de reduzidas características hidrodinâmicas.

Por sua vez, as bacias sedimentares lá ocorrentes ocupam áreas reduzidas e têm espessuras pequenas. Isto, no entanto, não significa corroborar com a sua segunda e radical afirmação de que os poços do Cristalino cearense "chegam a dar uma vazão horária quando muito da ordem de 400 litros por hora". A vazão média dos poços no Cristalino cearense, como, de resto, em todo o Semi-Árido nordestino, é de 2000 L/H. Portanto, cinco vezes maior a máxima do Dr. Cássio. Mas, o que interessa, é que o Sistema Aqüífero Cristalino tem, pelos seus atributos quantitativos e qualitativos, uma vocação socioeconômica que é a pecuária, mormente a caprinicultura. Esta atividade, assim como a bovinocultura, tem , de uma maneira geral, demandas quantitativas e qualitativas compatíveis com aquelas ofertadas pelos poços do Cristalino. Este quadro hidrogeológico pouco pródigo do Ceará, é, localizadamente quebrado pela existência de sistemas aqüíferos mais produtivos. É o caso dos Sistema Araripe, já citado, localizado na região dos Cariris Novos, do Sistema Potiguar, situado na fronteira do rio Grande do Norte e do Sistema Aluvial, ocorrente nos leitos e margens dos rios e riachos das diversas bacias hidrográficas cearenses. Este último sistema, inclusive, tem suas águas usadas no abastecimento de um perímetro de irrigação do DNOCS, o de Itaiçaba, o qual conta, também, com o concurso da água de um reservatório superfial de pequeno porte, situado a montante do perímetro.

Entretanto, o quadro hidrogeológico do semi-árido apresenta uma situação mais favorável em suas outras áreas sedimentares, tais como a bacia do Parnaíba (são 10 bilhões de metros cúbicos escoados, em média, por ano); a bacia sedimentar do São Francisco que contribui com cerca de 1250 m³/s para Sobradinho; a Bacia do Tucano/Jatobá, com algo como 100 m³/s (toda no semi-árido). Evidentemente, toda esta água não pode ser convertida em disponibilidade, através da sua exploração por poços, de vez que uma boa parte delas deve atender aos reclamos do meio ambiente, particularmente a vazão de base mínima da rede hidrográfica. Para o Nordeste como um todo, há que se incluir, além da parcela pelo Dr. Cássio delimitada, entre a Ponta de Touros, no Rio Grande do Norte, e Caravelas, na Bahia (corresponde às bacias/sistemas aqüíferos Pernambuco-Paraíba, Alagoas-Sergipe e Recôncavo), a bacia sedimentar Potiguar que se estende para oeste a partir da citada Ponta de Touros (Em Touros há um alto do Cristalino que separa a bacia sedimentar Potiguar da Pernambuco-Paraíba), o potencial de água subterrânea de toda a região Nordeste (incluindo o semi-árido) situa-se em torno de 55 bilhões de metros cúbicos por ano, em média, ou 1.745 m³/s. Não é uma quantidade apenas razoável, mas significativa (embora, grande parte dela esteja inserida nas bacias costeiras) já que representa cerca de 25% do escoamento fluvial nordestino. Por aí se vê, que o grande contingente hídrico do Nordeste (75%) é de águas do escoamento superficial direto, dependente imediatamente da ocorrência de chuvas (as barragens são inexoráveis). Estas águas subterrâneas, exceto as do Cristalino, têm sido usadas em abastecimento humano, inclusive de grandes cidades (Teresina, Natal, Maceió e, em menor proporção, Recife, João Pessoa e Aracaju) e médias, além de irrigação (cana de açúcar, fruticultura, etc) nos sistemas/bacias sedimentares costeiras. Esclareça-se que as captações "a fio d'água", são de água subterrânea que alimenta o fluxo de base dos rios.

Finalmente, também não sou, de uma maneira geral, favorável à dessalinização das águas de poços do Cristalino, pois tais poços trabalharão em estado de exautão, dada a dificuldade de recarga destes pequenos e limitados reservatórios.

Acreditando que atendi aos anseios de esclarecimento feito pelo amigo, subscrevo-me,

Atenciosamente, Patrocínio

PS - Refletindo sobre o que escrevi na mensagem anterior, vi que a mesma precisa de um adendo. É o seguinte: o Nordeste considerado na mesma não inclui os recursos hídricos inseridos no Estado do Maranhão, contidos nas bacias dos rios Tocantins maranhense, Gurupi, Mearim, Grajaú, Pindaré, Itapecuru, Munim e Barreirinhas. Ative-me à área considerada pelo Dr. Cássio. Quanto à parte da Transposição que ele advoga (50 m³/s), dá no mesmo dos 26,4 m³/s do governo, já que representa, anualmente, um aporte adicional de cerca de 1, 58 bilhão de metros cúbicos quando temos 37 bilhões acumulados nos reservatórios do semi-árido setentrional, praticamente sem uso compatível, que podem regularizar, com garantia de 100%, algo como 7 a 8 bilhões de metros cúbicos ao ano. Isto, sem contar as disponibilidades dos reservatórios médios e pequenos e as nossas águas subterrâneas. Além disso, o desenvolvimento socioeconômico dessa região não passa, sabemos todos, pela irrigação, principal consumidora de recursos hídricos. E o abastecimento populacional urbano e rural, industrial e da pecuária projetado para 2020 pelo Projeto ÁRIDAS não atinge 1,5 bilhão de metros cúbicos anuais.

Isto mostra a dispensabilidade da Transposição. Agora, a crítica dele, Dr. Cássio, ao dimensionamento dos canais é de todo procedente: estão super dimensionados para a vazão normalmente conduzida. Um canal tem que trabalhar com, pelo menos 2/3 de seu volume cheio. é o que se chama de "perímetro molhado". Com 26,4 m³/s, o canal vai trabalhar seco em sua parte superior, o que o coloca sujeito a quebras e outros problemas, como os que estão acontecendo atualmente. Qualquer outro esclarecimento, estou à sua inteira disposição. Abraços, Patrocínio

Se o amigo quiser dar conhecimento destes esclarecimentos aos nossos demais colegas, incluindo aí o Dr. Cássio, pode fazê-lo.

Abraços,

José do Patrocínio Tomaz Albuquerque - patrociniotomaz@uol.com.br

Graduado em geologia (hidrogeólogo) com mestrado em Engª Civil, área de Recursos Hídricos.

Maloel Bomfim Ribeiro

Prezados Apolo, Patrocínio e Cássio

Estava viajando pelo interior do estado da Bahia e não pude acompanhar as discussões de vocês.

Vou agora emitir o meu pensamento.

O foco é o problema dos recursos hídrico do Nordeste, embutido nele a Transposição, ou como usa o Governo o nome pomposo de Integração das Bacias do Nordeste.

A preocupação básica do colega e amigo Cássio é mostrar erudição técnica com números cheios de decimais falando da exatidão da matemática. A trama atmosférica, entretanto, é muito complexa, não usa decimal e costuma pregar peças nos técnicos, nos cientistas e em todos os arautos do conhecimento.

Estou lendo na discussão o preciosismo de dados de vazões, o rendimento hidrológico, vazão regularizada, vazão útil, vazão disponível, vazão social e por aí vai, mas sempre bordejando a Transposição pelos arrabaldes sem enfrentar a questão pelo topo, tentando justificar com numerologias a loucura do Governo que teima na construção desta famigerada obra. O tema é a Transposição é sobre ela que temos de falar, sem dados surrealistas que nada convencem. O Nordeste precisa ou não da Transposição? O Cássio diz que precisa.

O orçamento inicial era 3,6 bilhões de reais para toda a obra, hoje está em 8,2 bilhões. Sabemos que o orçamento deverá alcançar os 16 bilhões se a obra chegar ao fim. O cálculo é meu sem medo de errar.

Um grupo de políticos, ávidos para salvar o Nordeste, apregoa abertamente o fim das secas e a salvação do povo com a Transposição. São verdadeiros patriopanças e ladriótas. Os técnicos vivem a fundamentar com “dados irrefutáveis” a vontade pardacenta dessa turma.

Carlos Lacerda já dizia: “O técnico é um profissional fundamental para o desenvolvimento de um país, mas se torna de alta periculosidade quando, a serviço do Governo, deixa de defender soluções para aplaudir posições”. É o caso do corpo técnico do Ministério da Integração, não é o caso de Cássio que apenas faz elucubrações hidrológicas tentando, como bom cearense, justificar o injustificável.

O Cássio diz textualmente; “O Açude Orós acumula cerca de dois bilhões de metros cúbicos e sua vazão regularizada é de 12 metros cúbicos por segundo. Quer dizer que de dois bilhões só se aproveitam, incrivelmente, 372 milhões de metros cúbicos. É como se o açude Orós tivesse apenas 372 milhões de metros cúbicos”.

Nos cálculos do Projeto considera-se oficialmente a evaporação de 30% no Nordeste. Nós sabemos demais que o Orós chega a evaporar 60% ao ano. Vamos dividir ao meio, considerar para efeito de cálculo 45% porque a evaporação é variável, sem a exatidão da matemática, são dados estatísticos e é com eles que todos nós trabalhamos.

A Transposição com a vazão de 26 m³/s, levará 360.000.000 de m³/ano (ou os 372 do Orós) para os oito açudes escolhidos como bacias receptoras, mas estes já estocam 14 bilhões nos seus vasilhames. A evaporação do Castanhão, incrivelmente, um dos receptores da Transposição, é de 6 milhões de m³ por dia. Isto mesmo, 6 milhões/dia. O Cássio sabe disto, mas não declara. Todo o volume de água da Transposição de um ano vai cobrir apenas 60 dias de evaporação do Castanhão. É só calcular. Inacreditável!

Podemos, logicamente, dizer, aí entra a exatidão da matemática, que toda a estrutura da Transposição composta de 720 km de canais com 25 m de largura por 5 m de profundidade (90.000.000 de m³ escavados em rocha), 1 túnel escavado também em rocha com 17 km de extensão por 7 m de largura (maior do mundo para passagem de água), 27 aquedutos, 9 estações elevatórias e o consumo de 520 MW de energia (maior que o consumo do estado de Alagoas), toda esta estrutura ciclópica, repito, irá transportar por ano a titica de 360.000.000 de m³ de água para cobrir a evaporação de 60 dias daquele monumental açude. Esta é a Transposição. Só e só, não sobra mais água.

A Transposição está desnuda, senão vejamos: o Nordeste possui centenas de açudes que acumulam volumes muito maiores ao volume da Transposição tais como: Entremontes (340milhões) Pacoti (370 milhões), Pentecostes (420 milhões), Quixadá (430 milhões), Pedras Brancas (440 milhões) Poço da Cruz (504 milhões), Boqueirão (536), Santa Cruz do Apodi (600 milhões), Mãe D’Água (650 milhões), Coremas(750 milhões), Araras (1 bilhão) e por aí vai.

A cada 10 anos a Transposição usará 4 para o transporte máximo de 127 m³/s quando Sobradinho estiver cheio, levando 1,6 bilhões por ano para os 8 açudes. A estrutura da obra está sendo dimensionada para isto. Superior a estes míseros 1,6 bi existem o Banabuiu (1,7bi), Orós (2,1bi) e Açu (2,4 bi) além do Castanhão que é um açude oceânico (3 vezes a baía da Guanabara).

No Nordeste temos estocado nos seus açudes 40 bilhões de m³ de água, volume igual a 16 baías da Guanabara (eles não suportam esta comparação com a Guanabara que é a 2ª maior baia do Brasil e a 3ª do mundo).

O volume transportado representa 1% a 2% do que já existe no Nordeste, mas, segundo os sábios da Corte, é este volume que vai salvar a região da crônica escassez de água.

Esta é a Transposição salvadora que vai suprir as necessidades hídricas dos nordestinos sequiosos, segundo o Governo brasileiro.

O Cássio ainda tem a coragem de falar em irrigação. Levar água caríssima (5 vezes o preço da CODEVASF) a mais de 700 km para irrigar litossolos deixando de irrigar os latossolos do beiço do rio a 0 ou a 1 km da fonte. A água que vai irrigar 1ha lá no Nordeste irriga 3 ha nas barrancas do rio (Alberto Daker).

João Suassuna é irrepreensível quando diz que a Transposição é chuva no molhado. E o Governo, despudoradamente, tapeia a sociedade nordestina oferecendo um banho de água no Nordeste. São pratos de lentilhas que apetecem.

A preocupação do colega Cássio é dizer que o Prof. Aldo Rebouças errou, só entendia de águas subterrânea como se fosse admissível a um hidrólogo dissociar águas de superfície de águas de sub superfície. É a valorização de contestar um cientista que não pode mais se defender. Rebouças dizia textualmente: “Existe uma abundância de recursos hídricos superficiais no Nordeste”.

Quisera o Brasil que nos tivéssemos quatro ou cinco cientistas do nível do Aldo.

Não precisamos polemizar esta é a verdade cartesiana.

Manoel Bomfim Ribeiro - manoel.bomfim@terra.com.br

Milton Emílio Vivan - vivan@vivan.com.br

Vivan Engenharia

03/04/2012

(A pedido, foi retirado do Rema o comentário, sobre a Transposição, do engenheiro Milton Vivan e, em seu lugar, as razões que o evaram a solicitá-lo. O debate sobre a transposição no Rema continua de forma livre, aberta, transporente e democrática. João Suassuna)

Prezado Eng. Marcos Carnaúba,

Prezados Senhores,

Fiquei com a impressão que não foi de seu agrado a mensagem que postei no sentido contrário do que postaste no Grupo Calculistas – Bahia sobre a Transposição do São Francisco com origem no site REMA.

Como nosso grupo é de calculistas de projetos de estruturas de concreto, somos especialistas em ESTRUTURAS DE CONCRETO e como sempre o Sr. posta mensagens críticas a alguns projetos como Belo Monte e a Transposição, parece-me natural que seja admissível que também seja permitido que se postem no nosso grupo mensagens a favor e não apenas contra esses projetos. Quando se posta mensagens sempre no mesmo sentido, fica a impressão de que é essa a opinião predominante no Grupo, o que pode não espelhar a verdade. Observe também que há pessoas que pensam de forma diversa e que podem ter opinião oposta por mais respeitáveis que elas sejam. A imprensa chama a isso “ouvir o outro lado”, coisa que nos regimes ditatoriais de qualquer tendência não existe. Quando só um pensa, os outros não contribuem.

Esses projetos já estão sendo executados e sinceramente torço para que se tornem realidade e contribuam para o progresso do Brasil, apesar da polêmica que, justa ou injusta, me parece no momento algo tardia.

Lamento que o Sr. tenha tomado a liberdade, excessiva por sinal, de encaminhar textos que posto no Grupo Calculistas – Bahia a organizações externas e em MEU NOME !, simplesmente porque não tenho a intenção de participar de outro Grupo, nem interesse, nem tempo. Lamento também que tenha citado explicitamente o nome do autor do artigo que comentei, coisa que tive o cuidado de não incluir na mensagem que postei no Grupo para manter o debate ao nível de ideias e não pessoal. Por outro lado há muito mais gente especializada e competente para esse debate, mas não sei se disposta ou disponível, por mais competente que seja o fórum.

Por essas razões, mas principalmente por não ser minha vontade solicito a gentileza de que informe da mesma forma ao Sr. João Suassuna que retire o comentário posto em meu nome do site REMA por indicação do Sr. Marcos Carnaúba sem minha autorização.

Os atores e protagonistas desse debate devem ser outros: que se coloque frente a frente os responsáveis pelas críticas à Transposição postadas no GRUPO REMA com os responsáveis nas empresas que Conceberam o Projeto da Transposição, obviamente num fórum Neutro. Talvez isso já até tenha acontecido, mas seria útil a todos nós que se manifestassem a respeito, já que, em princípio, devem ser profissionais especializados na área, porque foram contratados especificamente com esse mister e realizaram profissionalmente os respectivos projetos. Se houver correções de rumos a serem trilhadas, e parece ser esse o objetivo das polêmicas, será a melhor oportunidade para tratar sobre elas.

Se conseguirmos que isso ocorra, alertamos que isso exigirá que as posições sejam sempre respeitosas, impessoais e com o debate centrado e estrito ao âmbito técnico.

Reservo-me o direito de postar minhas opiniões no Grupo Calculistas – Bahia, sempre que julgar oportuno, enquanto dele participar, responsabilizando-me por elas e disposto a nele ler opiniões diversas das minhas sem criar qualquer constrangimento ou embaraço a quem de mim discordar.

Desejo-lhe e a todos Boa Páscoa.

Atenciosamente,

Milton Emílio Vivan

05/04/2012

Vivan Engenharia

Projeto de Estruturas de Concreto

Fone (11) 3865 24 58 - Fone - Fax (11) 3872 4051

Celular: (11) 9614 0719 - www.vivan.com.br

1996-2012 - 16 anos

José do Patrocínio Tomaz Albuquerque

Prezado João Suassuna,

Estou viajando hoje à noite para Santiago do Chile, via São Paulo. Somente estarei de volta ao batente no próximo dia 10/04, se Deus quiser. O amigo Manoel Bonfim deverá esperar a réplica de Cássio (que também viajou) para poder se manifestar sobre a mesma. Certamente, os comentários do Engº Milton Emílio Vivan estarão embutidos na resposta de Cássio. Mas, se o amigo Bonfim se antecipar, tudo bem. Provavelmente, a discrepância entre os 360.000. 000 de Bonfim e os 810.000.000 do Vivan se deve a que, na maior parte do tempo, conforme tão bem colocou Cássio em relação ao Castanhão, os açudes receptores não precisam receber água. Aliás, assisti a uma palestra na Secretaria de Planejamento da Paraíba dos técnicos do Ministério da Integração em que os mesmos recomendavam "os 26 m³/s virão de qualquer jeito, então é preciso ter consumo para isso; e se Sobradinho sangrar, cada Estado deve importar o máximo". Ora, isto não é regra de transposição, já que não leva em consideração a situação dos reservatórios receptores. Isto pode configurar uma situação de perdas das águas transpostas e, até, levar as suas respectivas barragens a uma situação crítica, devido ao fato de que seus sangradouros, na ocorrência de cheias ( o que não é difícil, conforme aconteceu em 2004, quando todas as barragens receptoras sangraram e a cota de Sobradinho permitia, segundo o Projeto de Transposição, a derivação máxima), concomitante com a vazão transposta, não aguentarem essa soma dessas vzaões, podendo acontecer, até, o arrombamento destes barramentos com conseqüência trágicas inimagináveis. A regra deve ser uma função de probabilidades de ocorrência de eventos chuvosos lá e, principalmente, cá. Essa regra em que o Engº Vivan se baseou é simplória e nada tem a ver com a hidroclimatologia das partes envolvidas. Fico por aqui. Na volta, comentarei as demais defesas do Dr. Milton, afirmando, de antemão que ele também não foi muito feliz nos demais comentários.

Abraços,

José do Patrocínio Tomaz Albuquerque - patrociniotomaz@uol.com.br

Graduado em geologia (hidrogeólogo) com mestrado em Engª Civil, área de Recursos Hídricos.

03/04/2012

Apolo Hering Lisboa - apololisboa@gmail.com

Prezados desta rede.

Li com a maior atenção e respeito a mensagem do engenheiro Milton Emilio Vivan, da Vivan Engenharia endereçada ao engenheiro Marcos Carnaúba, conservada nesta página.. Fico muito realizado em ver este debate. O que acontece nos canteiros dá novo fôlego ao debate e o estimula. Nunca é tarde para coibir o mal feito e sempre será vantajoso para a sociedade, em termos de custos a economizar e em termos de futuros conflitos. Sempre acreditei na capacidade política da sociedade apesar de todas as decepções administradas ao longo do percurso. A discussão está sendo realizada com elevado nível técnico e respeito. O importante são os conteúdos e a liberdade de expressão num mundo censurado ou com a expressão coibida pela falta de acessibilidade à mídia tradicional. Mas com a internet tudo está mudando. Os “guerrilheiros” internautas são da paz. Foi esta discussão que o governo federal se negou a fazer, uma obrigação num país democrático, e as empresas saíram pela tangente, por interesses óbvios embora censuráveis. Sem a busca de uma integração entre os três segmentos da sociedade na busca de soluções para os nossos problemas, ou seja, a sociedade civil, os empresários e os governos, a democracia sempre será frágil e os conflitos se agravarão sem perspectivas de solução. Não vejo a transposição como uma questão apenas técnica mas essencialmente política a ser decidida, obviamente, com respaldo técnico. Como não houve tempo para o debate esclarecer esta contenda, por razões eleitorais, ficando de um lado as entidades científicas e do outro, isolado, o MIN, caberia ao STF analisar o mérito dos questionamentos existentes, inclusive do estado de Minas Gerais, pois envolvia uma questão federativa. Nem esta apreciação houve ainda, as obras estão na ilegalidade diante da omissão do STF. Seja bem vindo ao debate o engenheiro Milton Vivan. O senhor teve a oportunidade de escrever os seus argumentos e o publico estará apreciando-os e lendo também outros mensageiros. É preciso assinalar senhor Milton Vivan que a vazão alocável consuntiva para toda a bacia do São Francisco, reconhecida pela ANA e pelo CBH SF, é de 360 metros cúbicos por segundo. A estrutura construída e as bombas funcionarão apenas 40% do tempo, ficando paralisadas 60% do tempo de sua existência ( ver artigo do engenheiro cearense Cássio Borges, referência na defesa da transposição, quando denuncia, por este motivo, a criação de empresa específica para este fim, que irá incrementar os custos desta água, propondo o DNOCS, com experiência no semi-árido e estrutura já existente). Par nós, senhor Milton Vivan, água para consumo humano e dessedentação de animais deverá ser cedida pela bacia do São Francisco através de adução por tubos, caso seja necessário, o que ainda não foi comprovado. Esta foi a decisão do CBH SF e está mantida. A ANA, no plano federal lançou a proposta chamada Atlas do Nordeste para o abastecimentos de pequenas cidades, fazendo circular esta água estancada nos açudes nordestino, por raízes histórico-sociais. Há água estocada e água a ser mobilizada, conforme hidrólogos de renome como foi Aldo Rebouças, cearense. Por isso, concordo com o engenheiro nordestino Manoel Bomfim, ex-diretor do DNOCS, quando escreveu:

“A Transposição com a vazão de 26 m³/s, levará 360.000.000 de m³/ano (ou os 372 do Orós) para os oito açudes escolhidos como bacias receptoras, mas estes já estocam 14 bilhões nos seus vasilhames. A evaporação do Castanhão, incrivelmente, um dos receptores da Transposição, é de 6 milhões de m³ por dia. Isto mesmo, 6 milhões/dia. O Cássio sabe disto, mas não declara. Todo o volume de água da Transposição de um ano vai cobrir apenas 60 dias de evaporação do Castanhão. É só calcular. Inacreditável!

Podemos, logicamente, dizer, aí entra a exatidão da matemática, que toda a estrutura da Transposição composta de 720 km de canais com 25 m de largura por 5 m de profundidade (90.000.000 de m³ escavados em rocha), 1 túnel escavado também em rocha com 17 km de extensão por 7 m de largura (maior do mundo para passagem de água), 27 aquedutos, 9 estações elevatórias e o consumo de 520 MW de energia (maior que o consumo do estado de Alagoas), toda esta estrutura ciclópica, repito, irá transportar por ano a titica de 360.000.000 de m³ de água para cobrir a evaporação de 60 dias daquele monumental açude. Esta é a Transposição. Só e só, não sobra mais água”.

Reveja a carta enviada a Lula pela Caravana histórica de 2007, em arquivo anexado. Apolo

Apolo Heringer Lisboa

Idealizador e co-fundador do Projeto Manuelzão/Rio das Velhas

Professor da Faculdade de Medicina/UFMG

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Sr. Vivan

Valorizo a participação de um empresário nesta discussão, o que não é comum em nosso país. É com satisfação que leio os seus textos, pelo gosto que temos de descobrir a verdade e divulgá-la. A divulgação de sua mensagem foi um ato de boa fé, não nos leve a mal, como poderíamos imaginar que o certo seria esconder uma luz sob um cesto? O senhor deveria ter ficado orgulhoso. Ampliar nossa voz é um serviço prestado e como tal deve ser reconhecido, sobretudo quando não é cobrado.

A informação de que o sistema funcionaria no máximo 40% do tempo é aceita por todos os especialistas que conheço, inclusive enfatizada pelo eng. Cássio Borges, do CREA do Ceará, que defendeu o projeto de transposição, que admite não chegar nem a isto. Ou seja, o sistema irá ficar ocioso a maior parte do tempo, com altos custos de manutenção que serão transferidos ao custo da água que ficará sendo a mais cara do país, provavelmente. Acrescenta o engenheiro Cássio Borges, técnico muito bem informado, que os canais foram super-dimensionados e serão, se concluídos, forçados a levar 2/3 de água todo o tempo, para não racharem. Não há, segundo Cássio Borges, necessidade nem onde colocar esta água. Como resolver esta situação e tudo que nela está envolvido? Ele considera um absurdo estes erros, acrescentando que o Castanhão, o maior açude do Nordeste Setentrional, foi super-dimensionado e instalado em local equivocado. Suas águas serão para evaporação ou serem levadas ao oceano.

Quanto à capacidade do NS gerir suas necessidades hídricas sem necessidade de transposição, baseio-me nos estudos de cientistas como Aldo Rebouças, Ab Saber e outros que participam desta rede de discussões. Mas é necessário que se realizem obras hídricas sim, para realizar este potencial. Neste sentido a proposta Atlas do Nordeste da Agencia Nacional de Águas (ANA) é uma grande proposta que nós apoiamos.

Finalmente, quanto aos tubos em vez de canais abertos, somente fiz esta colocação dentro da posição do CBH SF – comitê de bacia hidrográfica do rio São Francisco, de ser favorável a ceder água para o NS, fora da bacia portanto, somente para fins de abastecimento humano e dessedentação de animais, com o mesmo preço cobrado na bacia. Seria uma quantidade bem menor, mudando completamente o quadro. Mas desde que esta necessidade hídrica seja comprovada. Neste caso o transporte seria por tubulações, como seria no caso de obras do Atlas do Nordeste. Tem sido uma satisfação esta conversa com o senhor e todos os demais. Nosso único interesse é que a verdade sirva ao nosso povo.

Apolo Heringer Lisboa

Idealizador e co-fundador do Projeto Manuelzão/Rio das Velhas

Professor da Faculdade de Medicina/UFMG

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09/04/2012

José do Patrocínio Tomaz Albuquerque

Volto hoje, graças à Deus, ao batente. Lendo as mensagens veiculadas no período de minha ausência, verifico, inicialmente, que o texto do Engº Vivian foi retirado do REMA a pedido dele. Somente tenho a lamentar, porquanto tinha ficado de fazer comentários sobre os demais aspectos abordados por ele na sua mensagem ao Marcos Carnaúba, aspectos estes que já não estão mais em minha memória. Mas, ao ler a resposta dele (Vivian) ao Apolo, vejo que, embora destaque a condição de sua empresa “de especialistas em estruturas de concreto” (mais precisamente, calculistas), ele transcreve as idéias de um especialista (não cita o seu nome), Mestre em Recursos Hídricos pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, e, portanto, assume as idéias deste especialista e defende a Transposição, particularmente, a operação da vazão a ser transposta. Inicialmente, mantenho o que escrevi sobre a regra de operação do reservatório de transpor, contínua e diuturnamente, os 26,4 m3/s, tanto faz em 24 ou 22 horas diárias. Detenho-me, agora, na afirmação de que “a somatória das vazões será da ordem de 26 m3/s, suficiente para que as seções inferiores dos canais estejam molhadas. Isso deve impedir problemas com as placas de concreto que apenas protegem o PEAD (responsável pela vedação do canal), se foram executadas com juntas entre placas da ordem de 5 mm para placas de 5 m (em itálico é minha opinião).” Pode ser que, estruturalmente (não sou especialista), as placas sejam apropriadamente construídas para protegeram o que ele chama de PEAD (não sei o significado dessa sigla). Mas, o problema é hidráulico, com conseqüência na estabilidade e no dimensionamento dos canais. Estes estão super dimensionados, sim, para as vazões normalmente transpostas e, portanto, trabalharão a maior parte do tempo, em sua parte superior, secos. É aí que reside o problema e não nas seções inferiores que estarão, sim, em boa parte, continuamente, molhadas. No eixo Norte, os canais (e demais estruturas) estão projetados para transpor até 99 m3/s, quando, na maior parte do tempo receberão, apenas os 16,4 m3/s. Ora, as áreas das seções e, conseqüentemente, os perímetros molhados são condições essenciais para elaboração de projetos de canais, variando diretamente com as vazões, produto da área da seção com a velocidade de transporte das águas, mantidas constantes e em escoamento do tipo laminar, para o que se considera a rugosidade dos canais. Isto significa, uma área seca enorme, sujeita, por muito tempo, às intempéries climáticas e que, para ser mantida intacta, precisa de uma manutenção certamente onerosa, superior a de um canal projetado para trabalhar, o tempo todo, molhado. O mesmo se pode dizer do eixo Leste, onde as vazões máximas e mínimas são, respectivamente, 28 e 10 m3/s. Se não for assim, para que os conceitos de seção e perímetro molhados? Falei em 2/3 da seção de uma forma genérica, mas, pode ser mais. Do ponto de vista econômico (hídrico ou agrícola) um projeto desses é, absolutamente, despropositado. Como se justifica que toda uma estrutura hidráulica e agrícola (perímetros irrigados) fique ociosa por tempos indeterminados? Não tem sentido!

Com relação ao Castanhão, ele receberá água da Transposição, sim, todos sabemos. É só consultar o lay-out do Projeto. O Engº Vivian parece ser uma pessoa bastante crédula em relação aos que com ele intercambiam informações profissionais. Mas, ele devia consultar outras fontes antes de divulgar (e, conseqüentemente, avalisar) opiniões ou informações de outrem. Ele tem razão em relação ao que afirma sobre as águas subterrâneas que, no Nordeste Setentrional (quase que totalmente constituído de rochas ígneas e metamórficas regionalmente impermeáveis, integrantes do Complexo Cristalino Pré-Cambriano), os poços tubulares profundos apresentam baixa vazão e águas salinizadas, com as exceções de praxe.

Em relação à forma de transpor, o especialista diz que “a hipótese de transporte por tubos é muito menos eficiente em face da forma circular”. Evidentemente, subtende-se que a água se destina à irrigação. Esta atividade, sabemos, não é solução para os problemas causados pelas estiagens. Para o abastecimento humano e rural existe água suficiente, já acumulada em açudes e não utilizadas, em sua plenitude numérica e de vazões regularizadas 100% garantidas. Para assegurar a concretização deste abastecimento, o transporte tecnicamente apropriado é o realizado por tubos de seção circular (adutoras). Finalmente, considerar como curiosa a dúvida do Nordeste Semi-Árido precisar ou não de água, mostra que o especialista não conhece a verdadeira dimensão dos recursos hídricos do Semi-Árido, que é exportador de água, mesmo a sua parcela incluída no Nordeste setentrional, abastecendo cidades localizadas em áreas costeiras e brejos semi-úmidos.

Os problemas futuros de abastecimento se localizarão, exatamente, nas grandes metrópoles da zona costeira, não contempladas, formalmente. no projeto de Transposição.

Não me dirigi ao Engº Vivian porque ele não me incluiu no debate. Mas, se aharem por bem, podem enviar ou incluí-lo, no todo ou em parte em suas mensagens pessoais ao citado engenheiro.

Abraços,

José do Patrocínio Tomaz Albuquerque - patrociniotomaz@uol.com.br

Graduado em geologia (hidrogeólogo) com mestrado em Engª Civil, área de Recursos Hídricos.

10/04/2012

José do Patrocínio Tomaz Albuquerque
Prezado Sr. Vivan

Antes de mais nada, peço desculpas por ter errado o seu nome em minha mensagem anterior. Quero, também, como já havia constato o amigo Apolo, registrar neste espaço, o seu equilíbrio emocional e, por esta mensagem ora respondida, a sua competência profissional como especialista em estruturas de concreto. Ficou bem claro, de sua mensagem, o que é o PEAD e a sua função em construções civis, inclusive e, principalmente, nos canais que integram o projeto de Transposição. Quero crer que, seguindo as normas de emprego do PEAD e de dimensionamento das juntas entre as placas de concreto, o problema de manutenção dos canais seria menor ou mesmo desprezível ou, mesmo, inexistente, já que a função das placas seria a de proteção das mantas. Estruturalmente, tudo estaria,portanto, de acordo com as normas técnicas que presidem o emprego das mantas de PEAD e o dimensionamento das juntas. Estas, não precisariam ser tão largas, já que a variação máxima de temperatura no semi-árido nunca excede, vamos dizer, os 20 graus centígrados (se for Farenight, evidentemente, o módulo é maior). . Mas, quero lembrar que as placas que revestem o canal têm outras funções, já tratadas superficialmente na minha mensagem anterior: a de conduzir a vazão transposta em escoamento laminar e de ter uma resistência tal, de forma a suportar o peso e o atrito da vazão escoada. Para isto, o canal deve ter uma rugosidade apropriada, no fundo e lateralmente, e uma espessura que assegure a estabilidade do mesmo. Todavia, não é isto o que vem ocorrendo nas parcelas de canais já construídas, conforme se pode verificar de uma das várias fotos postadas na Internet (aqui reproduzida em anexo), onde o leito e as parte laterais dos canais já estão totalmente fraturadas, função, pelo visto, da dilatação/contração sofrida pelas placas com a variação de temperatura lá verificada, mesmo sem a participação do escoamento hídrico, que, quando ocorrer, deve diminuir a ação da variação térmica por razões óbvias. Suponho, evidentemente, que na construção destes canais, tenha sido empregado o PEAD e que as juntas tenham sido dimensionadas de acordo com o figurino, o que pode não ter ocorrido, o que seria lamentável. Por outro lado, se a manta de PEAD e as juntas foram implantadas corretamente, isto significa que a parte que ficará a maior parte do tempo seca, é infensa ao emprego correto das mesmas. Aliás, salvo melhor juízo, o senhor, de certa forma e em alguma proporção, insinua que isto, mesmo remotamente, poderia ocorrer ao afirmar que "Teria sido muito melhor para o sistema se o canal funcionasse com uma variação menor de vazão, mais perto da máxima mas isso retiraria mais água do São Francisco, já motivo de muita disputa". A outra alternativa é que os canais tivessem sido dimensionados para a vazão mínima.

Quanto à afirmação de que "insisto que por aqui (grifo meu) soa estranho ouvir que não é necessária água para o nordeste". Isto reflete o desconhecimento, repito, da dimensão do problema causado pelas estiágens e das disponibilidades dos recursos hídricos da região e, conseqüentemente, da adoção das medidas corretas para a solução ou mitigação de seus efeitos, entre os quais não se inclui a irrigação no modelo atualmente praticado e proposto pelo projeto de Transposição. Eu poderia discorrer sobre o problema, seu diagnóstico e as soluções adequadas. Mas, isto levaria muito espaço e tempo. Tenho texto sobre isso, incluído em capítulo de um livro a ser editado nos próximos dias, o qual poderei colocar à sua disposição, caso o senhor queira.

Finalmente, acredito que o forum mais adequado para discussão do projeto de Transposição era, e ainda é, o orgão mentor do mesmo, no caso o Ministério da Integração Nacional. Mas, seus técnicos são refratários à qualquer argumento, engajados que são à política ora dominante. As empresas o defenderão, é óbvio, pois não lhes cabe outra coisa senão a sua execução, o que é compreensível e não acho que seja errado.

Abraços a todos.

José do Patrocínio Tomaz Albuquerque - patrociniotomaz@uol.com.br

Graduado em geologia (hidrogeólogo) com mestrado em Engª Civil, área de Recursos Hídricos.

10/04/2012

Milton Emílio Vivan - vivan@vivan.com.br

Prezados Colegas Patrocínio Thomaz e Apolo Lisboa

Temos tido por aqui notícias de severa seca atingindo várias regiões do nordeste uma das maiores dos últimos 25 anos e cogita-se de piora com extensão prevista até outubro deste ano.

Ontem em programa da Rede Globo houve a informação de que mais de 500 municípios estão em estado crítico.

As imagens do solo rachado, do gado morto, da aflição do nordestino sujeito à seca em total desalento são chocantes.

Lembrei-me imediatamente da afirmativa de que “há dúvidas de que o nordeste precise de água”.

E afirmei que por aqui soava muito estranho ouvir essa frase exatamente pelo fato do que hoje ocorre.

Apreciaria ouvir dos senhores sobre o que realmente está ocorrendo e se já estivesse em funcionamento o Projeto da Transposição se haveria alguma diferença.

Aceitem um grande abraço,

Milton Emílio Vivan

10/05/2012

 

José do Patrocínio Tomaz Albuquerque

A seca, em toda a sua plenitude, estabeleceu-se no semi-árido nordestino e deve exacerbar-se, não apenas até Outubro próximo, mas até o início da próxima estação chuvosa, esperada a partir de Janeiro ou Fevereiro (depende da área do semi-árido) do ano que vem. Praza aos céus que no ano vindouro, o período pluvial seja regular ou normal, senão, teremos um segundo ano consecutivo de estiagem. Mas, se faltaram as chuvas neste ano corrente, o semi-árido ainda tem água nos reservatórios médios e grandes, disseminados por toda a sua área. A grande maioria sem aproveitamento compatível com as suas disponibilidades 100% garantidas. Os pequenos deixaram secar ou estão secando, sem que fossem ou sejam, minimamente aproveitados, não obstante as previsões de que o fenômeno ocorreria. Plantou-se em Janeiro e Fevereiro, deixaram chegar Março e Abril vendo os açudes serem esvaziados pela evaporação e nada fizeram. Mesmo porque, era tarde para fazer alguma coisa. As ações de minimização e de convivência com a seca deveriam ter sido construídas, concretizadas, durante os mais de 10 anos em que as chuvas chegaram copiosas, regulares e, até, abundantes. Deixaram para trás os Planos de Recursos Hídricos estaduais e Nacional, fizeram ouvido de mercador para aqueles que defendiam essas ações, algumas delas da lavra do próprio governo federal, como o Atlas de RH com vistas ao abastecimento seguro urbano de todos os seus municípios, alguns com sistemas de abastecimento altamente vulneráveis ao fenômeno, porque realizado a partir de reservatórios sem condições para enfrentá-lo. Depois da porta arrombada é que vêm as ações, a maioria inócuas em termos de retorno econômico e social imediato porque tomadas tardiamente. Para quem, como o amigo, reside fora do Nordeste, o que fica é o que está referido na sua mensagem: soa estranho que o Nordeste não precise de água importada via Transposição, embora dos 600.000 km2 da bacia do São Francisco, mais de 400.000 km2 estejam incluídos no semi-árido e, portanto, sofrendo as agruras da mesma seca, até as localidades situadas em suas margens. Mas, não é essa a realidade para quem, como eu e tantos outros, vive no Nordeste e conhece "in loco" a sua região semi-árida. Para que o amigo seja introduzido nas questões que afetam essa região, envio, em anexo, o capítulo do livro de que lhe falei em mensagem anterior, ainda não editado. Chamo a atenção de o texto que ora enviado sofreu uma pequena alteração na legenda da Fig. 1.5: em vez de sistemas aqüíferos, trata-se de Unidades Geológicas Principais, já que ainda não se discorria sobre os recursos hídricos subterrâneos. Neste capítulo, o distinto colega pode verificar que Transposição do São Francisco em, nada modificará o quadro de efeitos adversos causados pela seca, embora a seca tenha sido usada para justificar o projeto.Se precisar de mais esclarecimentos, estarei ao seu inteiro dispor. Patrocínio

Milton Emílio Vivan

Prezado Colega Patrocínio Thomaz,

Grato pelo e-mail e pelo envio do anexo.

Já o lí completa mas rapidamente uma primeira vez.

Espero neste fim de semana lê-lo ainda novamente com mais atenção.

Mas posso adiantar algumas questões:

1) O projeto da Transposição estará garantindo o fornecimento de uma vazão de água que irá abastecer estruturas já existentes e certamente algumas outras novas a serem criadas. Já no caso do abastecimento dessas estruturas existentes não irá seguir o mesmo modelo do projeto original e ajudar à comunidade? A vazão mínima aduzida, sendo perene não atenuaria o problema da evaporação e falta de controle operacional citada em vosso e-mail?

2)

3)

Fui o responsável na década de 80 pelo Projeto Estrutural da Barragem de Zabumbão (fotos acima da tomada de água e ponte de acesso localizada no centro da barragem e abaixo vista geral com vertedouro de soleira livre na ombreira esquerda) cujo objetivo principal é o de Perenização do Rio Paramirim mas, também, de captação de água para abastecimento. Tenho notícias de que o povo da região da cidade de Paramirim a considera como ouro, tendo trazido muita riqueza (veja no Google). Devem haver muitas situações similares. Não seria também o caso de complementarmente às ações governamentais aumentar o número desse tipo de Barragens?

4) Pelo exposto no item 6.2 do livro nota-se que há uma razoável série de providências governamentais para a região paralelas à Transposição.

A Transposição não se agrega a esse conjunto?

5) Áreas de irrigação são obviamente sempre próximas aos cursos de água ou canais de irrigação. Fui o responsável pelo Projeto Estrutural da Barragem de Mirorós que provê água para a Adutora do Feijão há região de Irecê (fotos a seguir). Também com grande eficiência e sucesso. Mesmo que as vezes a seca abaixe bastante o Nível de Água, por que não é viável a irrigação através de canais?

 

Vista da Tomada de Água Seletiva e sua Ponte de Acesso

 

Vista para jusante da barragem de Mirorós aparecendo o canal da adutora do Feijão

 

Vista das vigas munhão e comporta do Vertedouro

 

Vista de jusante do Vertedouro e Barragem de Terra

Grande Abraço,

Milton Emílio Vivan

11/05/2012

José do Patrocínio Tomaz Albuquerque

Prezado colega Milton Vivan

Vou responder às suas questões adiantadas.

1-Transparece da primeira pergunta que os Estados receptores das águas a serem transpostas não dispõem de recursos hídricos suficientes para o atendimento de suas demandas socioeconômicas consuntivas urbanas (abastecimentos humano, industrial e de serviços) e rurais (humana difusa, pecuária e irrigação de perímetros já instalados ou, mesmo, a serem instalados). Ao contrário do apregoado pelos defensores da Transposição, mesmo em período de secas como a tual, estes Estados tem reservatórios, em todas as bacias hidrográficas receptoras, que regularizam vazões com garantia de 100% capazes de suprir estas demandas até, pelo menos, 2.025 ( o horizonte de tempo considerado nos Planos Estaduais de Recursos Hídricos e na Transposição). A irrigação no modelo atualmente praticado, se insistirem em continuar a sua implantação, é que, em alguns casos exaurirá os recursos hídricos de algumas bacias. Mas, este modelo de irrigação, consumista de recursos hídricos (porque inadequado às condições fisiográficas, bióticas, sociais e culturais da região) não tem condições de solucionar ou, mesmo, mitigar, os problemas causados pelas estiagens (perda da produção agrícola de subsistência e do pasto para o gado, atendimento da demanda populacional humana difusa, etc, pois, toda a área irrigável representa, como o amigo pode ter lido no capítulo do livro enviado, apenas 0,22% da área de nosso Semi-Árido e 5,4% da área de plantios dessa região. Os 94,6%, não beneficiados pela irrigação, continuarão sofrendo as agruras das irregularidades pluviais, agudas (secas) ou não (veranicos). Então, a irrigação, qualquer que seja o método adotado, não é solução para a seca. A solução ou, pelo menos, a minimização de seus efeitos deletérios, passa por medidas que visem a correção das irregularidades pluviais, o que pode ser conseguido pelo uso dos recursos hídricos acumulados nos reservatórios de portes diversos, já existentes, ou da água de poços de sistemas aqüíferos com tais condições. E, não, deixar acontecer o que se verificou na atual seca: os agricultores plantaram com as chuvas de Janeiro e Fevereiro, a chuva não veio em Março e Abril, como não está vindo agora em Maio, os açudes que tinham e receberam alguma água não foram usados (por falta de mentalidade e de recursos financeiros pelos proprietários, principalmente os pequenos, dominantes no Semi-Árido, e por incompetência, omissão ou interesses políticos menores de nossos governantes), os de pequeno porte secaram ou estão secando e o quadro socioeconômica resultante é este que o amigo está tomando conhecimento através do noticiário de jornais e da mídia eletrônica. Não haverá solução concreta e duradoura, se não respeitarem as aludidas características sociais, bióticas, culturais, etc. Neste sentido, recomendo a leitura de outro livro sobre o Semi-Árido, de autoria de um de seus mais competentes estudiosos, o Dr. Manoel Bonfim Ribeiro, cujas proposições e idéias vão ao encontro dessas premissas e que complementam o que defendemos, aqui, resumidamente, exposto. Portanto, as estruturas existentes (as que receberão as águas transpostas e outras não contempladas) não precisam importar água para o atendimento da comunidade. Isto somente ocorrerá, com a segurança requerida, se os sistemas de abastecimento das cidades, atualmente realizados a partir de reservatórios sem capacidade de regularização, tiverem como fontes de suprimento os reservatórios, robustos e resilientes à seca, existentes, disseminados nas áreas semi-áridas de todos os Estados receptores. Para isto, há que se implantar uma vigorosa rede de adutoras e de sistema de distribuição, inclusive chafarizes, os quais atenderiam as demandas difusas.

2- A segunda questão, relacionada com a vazão mínima aduzida pela Transposição, ao contrário do que o amigo pensa, não reduzirá o problema da evaporação (das águas dos reservatórios receptores). A taxa de evaporação continuará a mesma. Com a chegada da água, a área da superfície livre do reservatório aumentará. Conseqüentemente o volume de água evaporado aumentará na mesma proporção. Quando muito, a água aduzida compensará (e, em alguns casos superará) as perdas por evaporação já verificadas. Dou um exemplo: O reservatório denominado Epitácio Pessoa, situado no município de Boqueirão de Cabaceiras (ele é mais conhecido como açude de Boqueirão) perde por evaporação um volume estimado entre 40 e 60 milhões de m3/ano (nos meses mais secos, a perda pode atingir os 8 milhões de metros cúbicos). A Transposição o reabastecerá, segundo a regra anunciada, com 1,2 m3/s, ou algo com 38 milhões por ano. Mesmo com tais perdas, o reservatório hoje regulariza, aproximadamente, apenas, 1,4 m3/s, suficiente para o atendimento da demanda de abastecimento urbano de várias cidades, Campina Grande entre elas. A história da sinergia (segundo os defensores da Transposição, 2 + 2 = 5), isto é, um reservatório que regularizasse 2 m3/s, com os dois aduzidos, poder-se-ia utilizar 5 m3/s. O 1 seria o ganho pela redução das perdas por evaporação pelo uso intensivo das águas transpostas. Eles só não disseram onde, em que e porque usar toda esta vazão fictícia. O ganho pelo uso, existe. Mas, não nesta dimensão preconizada pelos autores da idéia. E é isto que os nossos gestores deveriam fazer, minimizar as perdas e maximizar o uso, estimulando a utilização das águas dos pequenos açudes que, com seca ou não, esvaziam ao cabo de 1 ano ou menos, pela evaporação de quase toda sua água, sem um aproveitamento compatível.

3- Defendo a construção de barragens que tenham capacidade de regularização plurianual para o atendimento de demandas urbanas, principalmente. Toda barragem, sabemos, gera impactos positivos e negativos. Estes devem ser minimizados, sejam em seus aspectos sociais, sejam nos ambientais, o que os governos, inclusive estes últimos, não têm feito. Por esta razão, é que existe o movimento contra a construção de barragens encontra eco entre o povo e os ambientalistas. Mas, elas são, na maioria dos casos, indispensáveis ao atendimento de demandas consuntivas. As não consuntivas (leia-se hidrelétricas) é que poderão ser atendidas por outras fontes alternativas, dependendo das condições de geração e das características das demandas. No Semi-Árido, dispomos de algumas dezenas de grandes , sendo que, algumas bacias hidrográficas estão saturadas delas, com seus reservatórios grandes, médios e de pequena capacidade de acumulação. Isto ainda não ocorre nas bacias hidrográficas que drenam o Semi-Árido baiano, segundo artigo do Dr. Manoel Bonfim Ribeiro. Mas, como afirmei antes, o que se precisa é atender as demandas permanentes a partir de ofertas idem dos reservatórios, através da construção de adutoras.

4- Transposição é a última medida da qual se deve lançar mão para resolver um problema de exaustão de recursos hídricos locais, endógenos. A escassez dos recursos hídricos do Semi-Árido é relativa (quando comparada com a potencialidade hídrica de outras regiões). Não é absoluta e nem atingiu o estado de exaustão (poderá atingir, com a implantação de projetos inadequados de irrigação, a qualquer preço, não somente em nosso Semi-Árido, mas em qualquer região, já que é a atividade mais consumidora de recursos hídricos do Mundo, cerca de 70%, em média). Antes da Transposição, ter-se-ia que implantar, entre outras, as medidas por mim relacionadas no capítulo do livro de nossa lavra (minha e do Prof. Janiro Costa Rego). A transposição é, portanto, no mínimo, extemporânea. Além disso, se for, como parece, destinada, em sua maior parte à irrigação, além de não resolver ou mitigar, significativamente, os problemas decorrentes da estiagem, ela vai onerar, sobremaneira, os consumidores urbanos dos Estados receptores que é quem vai pagar a conta do Projeto, através do subsídio chamado cruzado, em que o irrigante (empresa ou pessoa física – a empresa repassará os custos adicionais do insumo ao consumidor) ficará isento dos custos de investimento da obra, de sua operação e manutenção e da cobrança da água bruta aos Estados receptores, transferindo-o ao consumidor urbano de água, resida ele em qualquer cidade. Isto significa que, um cidadão urbano destes estados, ao adquirir uma fruta produzida por esta situação, estará pagando, não somente, os custos de produção da fruta relacionados com a energia gasta (provavelmente isenta ou subsidiada), mas também, os custos relativos à Transposição. Isto é, no mínimo, uma injustiça a mais que se pratica com a classe média destes Estados. Fica claro que, para este consumidor, ficaria muito mais barato comprar a fruta se ela fosse produzida em novas áreas irrigadas na própria bacia do São Francisco, mesmo que o transporte dessa mercadoria fosse feito por via aérea. O que ocorre é, ao cabo de tudo, exatamente isto: produzir-se-á aqui, a um custo excessivo, o que se poderia produzir lá ,a custo razoável de mercado. Afinal, tudo é Nordeste, tudo é Semi-Árido.

5- O método de irrigação por canais não é que seja inviável. Ele é um dos que mais favorecem as perdas por evaporação (da água conduzida) e por evapotranspiração (da água aplicada) por transportarem e aplicarem água à superfície livre. Isto resulta numa eficiência de irrigação menor (60%, 70%) que a dos métodos em que a água é conduzida e aplicada por tubos fechados (80 a 95%). O Estado de Israel sabe disso e, por esta razão, tem substituído um pelo outro método.

Esperando ter contribuído para uma compreensão melhor de nossas posições, subscrevo-me,

Atenciosamente,

Patrocínio


Milton Emílio Vivan - vivan@vivan.com.br

Prezado Colega Patrocínio Tomaz,

Grato pelo e-mail.

1) Entendi que consideras que se estivesse hoje implantado e em pleno funcionamento o Projeto da Transposição, nada, absolutamente nada estaria diferente do que hoje está em termos de atendimento hídrico às necessidades da região, apesar da chegada da vazão proveniente da Transposição. Esta seca que hoje já aflige o nordeste estaria causando os mesmos estragos.

È correto meu entendimento? Em caso afirmativo remeto ao vosso primeiro e-mail onde citas:

“A seca, em toda a sua plenitude, estabeleceu-se no semi-árido nordestino e deve exacerbar-se, não apenas até Outubro próximo, mas até o início da próxima estação chuvosa, esperada a partir de Janeiro ou Fevereiro (depende da área do semi-árido) do ano que vem. Praza aos céus que no ano vindouro, o período pluvial seja regular ou normal, senão, teremos um segundo ano consecutivo de estiagem. Mas, se faltaram as chuvas nesta ano corrente, o semi-árido ainda tem água nos reservatórios médios e grandes, disseminados por toda a sua área. A grande maioria sem aproveitamento compatível com as suas disponibilidades 100% garantidas. Os pequenos, deixaram secar ou estão secando, sem que fossem ou sejam, minimamente aproveitados, não obstante as previsões de que o fenômeno ocorreria. Plantou-se em Janeiro e Fevereiro, deixaram chegar Março e Abril vendo os açudes serem esvaziados pela evaporação e nada fizeram. Mesmo porque, era tarde para fazer alguma coisa.”

Como que se pode afirmar que em nada o Projeto da Transposição irá afetar o cenário se será aduzida à região a vazão do Projeto da Transposição? Ou o Sr. acredita que não irá chegar água aos locais previstos? Além disso, se essa seca se prolongar por dois ou três anos, ainda assim acreditas que em nada o Projeto da Transposição irá ajudar? Mesmo sabendo que os reservatórios existentes poderão atingir níveis mínimos alarmantes e até secar se não receberem água em volume suficiente, mas que certamente serão beneficiados com uma vazão perene do Projeto da Transposição?

2) Qual seria o diâmetro da tubulação necessário para aduzir o volume máximo da ordem de 120 m3/s previsto no Projeto da Transposição?

3) Se os reservatórios existentes puderem trabalhar com cotas mais baixas considerando a vazão afluente do Projeto da Transposição e portanto com menor área exposta ao ar, por que não haverá menor evaporação?

Atenciosamente,

Milton Emílio Vivan

15/05/2012

José do Patrocínio Tomaz Albuquerque
Prezado colega Milton Vivan

Vejo que o colega resiste em aceitar o que, para nós outros, está muito claro: o alcance da Transposição diante da área agrícola afetada pela seca é mínimo. Não é nulo, mas é quase nada. É uma questão dimensional, de números. Ora, dos 26,4 m3/s, 20 (mais precisamente, 18,48 m3/s, correspondentes a 70% da vazão mínima transposta) serão destinados à irrigação, de cerca de 30.000 a 50.000 ha, área esta situada nas margens dos canais. Irriga-se hoje no Semi-Árido 1.275.000 ha (2, 76% da área de plantio do semi-árido) e vem a seca, o quadro continua sendo o mesmo de priscas eras, ou pior. Irrigando-se, com a Transposição mais 50.000 ha (0,11%), o amigo acha que vai mudar, significativamente, alguma coisa? Pra mim, está claro que não.

Quanto ao abastecimento humano urbano, a solução é outra: substituir as fontes de abastecimento atuais, vulneráveis à ocorrência de secas, por outras fontes, robustas e resilientes ao fenômeno. E estas fontes existem em todas as bacias receptoras.

A seca afeta mesmo, de forma aguda e extensiva toda a área de plantio de cultivos de subsistência e de pasto natural. Estas (46.035.000 ha) não são o objetivo da Transposição. E nem poderia ser, mesmo com a vazão máxima, pois o modelo de irrigação adotado consumiria, não somente os recursos hídricos de todo o Semi-Árido, mas de todo o Nordeste, aí incluindo todo o potencial hídrico da bacia do São Francisco e o das bacias hidrográficas de suas áreas úmidas. E olhe que, ainda assim, por insuficiente para o atendimendo dessa demanda nos 46.035.000 ha, precisar-se-ia importar água de outras bacias hidrográficas, como a do Tocantins. E as outras demandas, consuntivas e não consuntivas, como seriam atendidas? Uma quimera! Não haveria como, pelo menos dentro de um contexto econômico e financeiro normal. Por outro lado, apesar da produção de alimentos diversos pelo processo de irrigação atual citado, seus efeitos financeiros também não são significativos, se é que existem para a economia do Nordeste: os preços desses gêneros subiram estratosfericamente com a atual seca. O feijão, por exemplo. (ingrediente fundamental na alimentação do brasileiro), subiu de R$3,00 - R$3,50 para R$ 6,20 a R$ 6,80 aqui nos supermercados e feiras livres de João Pessoa. Porque a produção da área irrigada não evitou este aumento? Porque ela, se muito, representa 30% dos gêneros alimentícios produzidos na região, consumindo algo como 48% das águas acumuladas em reservatórios. Os outros 70% vem das culturas de subsistência, dependentes, apenas, das chuvas e de nenhum reservatório, embora existam 70.000, do quais uns 95% são sub-utilizados.

Em relação ao diâmetro de tubulação, ao contrário do que ocorre com a transposição por canal, se fôssemos aduzir agua do São Francisco, não seria para irrigação, conforme se deprende do que expus. Estas águas teriam como uso o abastecimento urbano e, em alguns casos, rural. Para isso, a água poderia ser transportada por váris adutoras, conforme o local e o projeto de abastecimento. Seria um investimento maior, mas os gastos com operação e manutenção, resultariam muito menores, compensando, com vantagens, os investimentos. Israel tem feito isso!

Finalmente, para os reservatórios receptores trabalharem em cotas mais baixas, diminuindo as perdas por evaporação, seria necessário o uso, tanto de toda a vazão transposta, quanto da vazão ofertada pelo reservatório local. Isto signidficaria um uso intensivo desta soma de vazões, coisa que somente a tividade de irrigação poderia oferecer. O abastecimento urbano, com todas as suas demandas (humana, industrial e de serviços), não. Então, onde estão, no projeto da Transposição, estas áreas irrigáveis? E nos Estados receptores? Veja que os solos do Nordeste Setentrional são pedregosos, rasos, de baixa fertilida, impróprios para agricultura mecanizada. Aqui, na Paraíba (e sei que o amigo não sabe disso) o grosso das águas do Eixo Leste não ficará no Semi-Árido paraibano. Elas serão trazidas para a região semi-úmida a úmida do Estado, mais precisamente, para as bscias hidrográficas dos rios Mamanguape e Camaratuba, onde as demandas atuais consomem, respectivamente, 27% e 9% de suas disponibilidades possíveis. Isto é, existe saldo hídrico não utilizado nessas bacias, mas tinham que arrumar um lugar para receber as águas da Transposição e erraram.

Espero que, com estes esclarecimentos, o amigo compreenda melhor o alcance da Transposição, a dimensão do problema da seca e como os recursos hídricos da região devam ser usados: segundo as suas condições fisiográficas, bióticas, culturais, etc., etc., como, aliás, preconiza a Lei 9.433/1997.

Abraços,

Patrocínio

Saiba (+) sobre o assunto:

O Vale do São Francisco e suas Potencialidades

http://www.remaatlantico.org/Members/suassuna/eventos/o-vale-do-sao-francisco-e-suas-potencialidades/

ENGº CÁSSIO BORGES DIVULGA MATÉRIAS SOBRE A TRANSPOSIÇÃO DO SÃO FRANCISCO.

http://www.remaatlantico.org/Members/suassuna/campanhas/engo-cassio-borges-sobre-a-transposicao-divulga-materias-sobre-a-transposicao-do-sao-francisco/view

Ceará tem R$ 426,5 milhões para ações contra a seca

http://www.remaatlantico.org/Members/suassuna/campanhas/ceara-tem-r-426-5-milhoes-para-acoes-contra-a-seca/view

 

Cisternas de Enxurrada ou de Produção

http://www.remaatlantico.org/Members/suassuna/projetos/cisternas-de-enxurrada-ou-de-producao/view

A SECA NAS MARGENS DO RIO SÃO FRANCISCO

http://www.remaatlantico.org/Members/suassuna/campanhas/a-seca-nas-margens-do-rio-sao-francisco/view

Nordeste: disputas institucionais, artigo de Cássio Borges

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