domingo, 18 de agosto de 2013

Tecnologia Importada

Prezado João Suassuna - Encaminho reportagem ontem divulgada pela Folha de São Paulo sobre um projeto a ser implantado no Ceará, decorrente de cooperação ou convênio entre aquele Estado e Israel. Surpreende-me a falta de conhecimento sobre soluções para convivência com o nosso Semiárido e suas secas por parte do pessoal do Ceará. Antes de importar tecnologias, deveriam discutir as existentes, formuladas ou defendidas por nossos pesquisadores e estudiosos outros. Não o fizeram. como se aqui nada tivesse sido criado neste sentido. Ignoram solenemente os projetos da Fazenda Carnaúba, o Base Zero, o Mandala, os da ASA e outros. Há mais de 1 ano, precisamente, em 05/07/2012, a ABRH-Gestão publicou um vídeo sobre o problema de escassez de água em Israel e a forma de produção de alimentos pela irrigação, o que poderia ser implantado no nosso Semiárido, segundos os nossos pré-claros técnicos e cientistas em recursos hídricos sulistas (sentido amplo). Fiz um comentários sobre as diferenças geológicas, hidroagrológicas, hidrometeorológicas, etc. entre as duas regiões questionando a aplicabilidade da irrigação em modelo continuado de uso da água por todo o período seco e os problemas dele decorrentes, inclusive a salinização. Pois bem, Quixeramobim em nada se assemelha em termos físicos (geologia, relevo, recursos hídricos, solos, cobertura vegetal, etc.) ao que existe me Israel. Nesse município cearense, a geologia é Cristalina (granitos, migmatitos e xistos, estas últimas altamente produtoras de sais), a hidrogeologia é de zonas aquíferas resultantes de fraturamento, de difícil recarga, de água pouca e ruim (2 a 4 g/L de sais). Os solos têm todas as restrições de uso em irrigação: rasos, pedregosos, pouco férteis e secos, relevo ondulado, igualmente salinizados, etc. etc. Dentro desse quadro, penso que, ao contrário de Israel, onde se usa água subterrânea de aquíferos sedimentares e de reuso para recarga destes mesmos aquíferos, aqui eles terão que buscar água de açudes, neste caso, não vulneráveis à seca. Não sei se há algum com tal condição em Quixeramobim. O fato é que, acho, a área foi mal escolhida. Vamos ver o que será essa fazenda modelo. O problema não é somente o relacionado com a quantidade de água, mas com a qualidade física e química da mesma. O gotejamento não gera fluxo para lixiviar sais acumulados no sistema radicular, e, se a água e o solo apresentam salinização naturais, o método somente elevará a concentração de sais. Espero que os gestores em RH do Ceará e de Israel tenham avaliado bem o projeto, após a discussão de todos estes aspectos diferenciais. Todavia, a parte final da notícia veiculada hoje na Folha de S. Paulo mostra que uma das intenções do projeto é aumentar o mercado de Israel no Brasil. O que explica muita coisa, aliás, própria de judeus. Aguardemos. Abraços, Patrocínio Tomaz


A seguir, apresento o texto que fiz sobre o vídeo e as soluções implantadas em Israel, em resposta ás preconceituosas opiniões sobre o Nordeste.
Prezado Guto Guerzoni e demais participantes da Lista,
Independentemente do problema político, que existe, mas que não é apanágio da nossa região Nordeste, existindo casos e situações muito mais cruéis que a nossa "indústria da seca" (a qual combato com meus estudos, participação em pesquisas e projetos, etc.), igualmente relacionadas com o clima e com outros fatores, em todas as regiões brasileiras ( exemplo do que eu chamaria de "indústria das chuvas", com seus problemas correlatos), e em outras nações, achei um despropósito a comparação realizada a partir do vídeo anexado.
São absolutamente distintas as condições fisiográficas, socioeconômicas (com ênfase ao orçamento financeiro, onde aportam recursos exógenos, de uma economia centrípeta) e históricas que permeiam o Estado de Israel, de um lado e, de outro, a região semiárida do Nordeste. A começar pelo índice pluviométrico que, em Israel, é menor, mas que não chove somente os 30 mm anuais em seu território, como dá a entender a sua colocação inicial. Seguramente,com 30 mm anuais não se irrigaria um palmo de solo árido e frio do deserto. As fontes principais de recursos hídricos do Estado de Israel são o Mar da Galileia (Lago Kineret deles), o rio Jordão e, principalmente, a água subterrânea dos aquíferos denominados Litorâneo ou Costeiro, das Montanhas, do Norte e do Oeste (recursos renováveis de 1,686  bilhão/ano, insuficientes para repor a vazão explorada), além do reuso das águas e da dessalinização. Os aquíferos, por sinal, são objeto de recarga de parte dessas águas do reuso e, mesmo assim, trabalham em regime de exaustão. Mas, além da diferença estratosférica de áreas (Israel tem cerca de somente 20.700 Km2 e o Nordeste Semiárido tem mais de 1.000.000 de Km2), o problema maior de nossa região está na falta de atendimento de suprimento hídrico da população do meio rural (mais de 12 milhões de pessoas) e das atividades agrícolas praticadas em mais de 40 milhões de hectares e da pecuária, em terras de rochas Cristalinas (ígneas e metamórficas) em mais de 50% da área e, portanto sem as condições de armazenamento de água que existe em Israel. Lá, as rochas são sedimentares (areias, principalmente). Onde estas condições existem aqui, em nosso Semiárido, são nos sistemas aquíferos Tucano/Jatobá (Bahia/Pernambuco), São Francisco (Bahia) e em outros menores a exemplo do Araripe e bacias sedimentares residuais interioranas de limitado potencial hídrico). Quer dizer, não existe esta propalada ocorrência extensiva de "mananciais e/ou afloramentos de lençol freático" em nosso Semiárido, que precisem ser reflorestados, a não ser em áreas do Raso da Catarina (Bacia do Tucano/Jatobá), já que o solo da bacia sedimentar do São Francisco é quase todo irrigado com água de Sistema homônimo. o que se reflete, negativamente, na vazão de base dos afluentes do rio São Francisco que aportam em Sobradinho. A área irrigável do nosso semiárido é de, apenas, 2.161.000 ha (0,22% da área do Semiárido) da qual já se irrigam 1.275.000 ha (59%), sem respostas significativas ao problema decorrente das secas. No meio rural de Israel vivem cerca de 600.000 pessoas e a atividade agrícola é praticada em  um total de 182.000 hectares situados na região desértica (ao sul) para onde são carreados os recursos hídricos necessários proveniente da metade norte do País, onde a precipitação média anual atinge os 700mm.. Ainda assim, são projetos não de todo, sustentáveis, quando se relacionam recursos hídricos, tempo e demandas crescentes. E eles, os israelenses, sabem disso. Que o digam os palestinos, os jordanienses e outros povos vizinhos.
Atenciosamente,
Patrocínio
 
Com 30 mm anuais de chuva eles fazem isso.. no Brasil criou-se o mercado da seca..politicagem
 

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