terça-feira, 27 de agosto de 2013


Desafios da transposição: meta do investimento é levar água para 2,7 milhões paraibanos.


Contexto é de desconfiança, prejuízos e atrasos, mas Governo projeta conclusão da o.bra para 2015.

http://portalcorreio.uol.com.br/noticias/cidades/agua-e-esgoto/2013/08/25/NWS,228393,4,69,NOTICIAS,2190-DESAFIOS-TRANSPOSICAO-META-INVESTIMENTO-LEVAR-AGUA-MILHOES-PARAIBANOS.aspx

Reprodução/Internet


Canal de transposição

“O começo das obras da transposição parecia um sonho realizado para todo mundo daqui, mas até agora só trouxe prejuízo”. A afirmação é da agricultora Maria das Dores Batista, desapropriada da comunidade Boa Vista, próxima ao município de São José de Piranhas, no Sertão da Paraíba - distante 500 km de João Pessoa. Ela é dona de uma das 300 casas desapropriadas no Estado por causa das obras no lote 7 da transposição do Rio São Francisco, que atualmente está parada e será a última a ficar pronta, em dezembro de 2015, segundo o cronograma do Ministério da Integração Nacional.

Há cinco anos, o pai da agricultora recebeu uma indenização, mas hoje a família ainda não pode cultivar os alimentos que eram o sustento da casa onde moram seis pessoas. “Enquanto a obra não fica pronta, a gente não tem como plantar. Antes já era difícil, agora é impossível. O jeito é viver da aposentadoria do meu marido”, lamentou Maria das Dores, sinalizando pouca confiança quanto ao prosseguimento das obras.

A desconfiança em relação à transposição é justificável, já que desde a época do Império a obra é cogitada no Brasil, mas nunca saiu do papel. Desta vez, o cenário pode mudar e o poder público garante que a partir de 2015 o sertanejo conseguirá conviver melhor com a seca. É possível ver as obras do Governo Federal avançando, mesmo que a passos curtos, e alcançando 45% da execução, enquanto os Estados se preparam com as obras complementares para que a água da transposição chegue às residências.

Na Paraíba, o secretário de Recursos Hídricos, João Azevedo, afirma que estão sendo investidos R$ 3,5 bilhões em obras de abastecimento, dos quais R$ 1,5 bilhão é destinado para o suporte à transposição. Segundo ele, as águas do São Francisco chegarão a 2,7 milhões de habitantes em 130 municípios do Estado.

Um desses beneficiados deverá ser o agricultor e comerciante Sandoval Oliveira, que vende nas ruas de São José de Piranhas as frutas e verduras colhidas na própria lavoura. Farto das promessas históricas, ele prefere adotar a cautela e não criar expectativas quanto à chegada do ‘Velho Chico’ ao Sertão da Paraíba. “Eu não acredito muito e vou continuar trabalhando como sempre fiz. Se ficar pronta (a transposição), melhor ainda, porque vou aumentar as vendas. O cultivo hoje só dá praticamente para o consumo da família e sobra pouco para vender”, disse.

Para o secretário João Azevedo, as obras melhorarão não apenas a vida dos agricultores, mas também potencializará o desenvolvimento econômico da Paraíba. “Ao garantir a segurança hídrica é possível alcançar o desenvolvimento econômico, porque a indústria que necessita de bastante água só vai se instalar no Estado se tiver essa garantia”, destacou João Azevedo.

Segundo ele, a transposição, aliada às obras complementares, proporcionará uma melhor condição de vida durante os períodos de seca. “Os efeitos da seca vão ser bastante minimizados com essas ações. Na próxima estiagem, a população vai estar bem mais preparada”, ressaltou.

COMENTÁRIOS

João Suassuna – Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, Recife

Em 2009, li em um jornal na Paraíba, a seguinte manchete: A Paraíba irá ter acesso à água do Rio São Francisco em 2010. Essa assertiva me fez escrever o artigo intitulado “Águas do São Francisco na Paraíba em 2010: pura ilusão”, editado no Portal EcoDebate daquele ano. Passados 4 anos daquele engodo à população residente no Semiárido paraibano, deparei-me, novamente, com algo semelhante. Desta feita o mesmo jornal havia trazido a seguinte manchete: “Desafios da transposição: meta do investimento é levar água para 2,7 milhões paraibanos”. Para quem vem acompanhando a saga da transposição irá perceber tratar-se de nova ilusão! Ora, a população do setentrional nordestino, segundo o último censo, é de cerca de 13,5 milhões de pessoas. Se excluirmos dessa estatística, a população atendida pelos abastecimentos proporcionados pelos governos, municipal e estadual, chega-se à conclusão de que, no Semiárido, cerca de 10 milhões de pessoas estão fora das políticas governamentais de abastecimento. Trata-se da população difusa que habita a região. Se pontuarmos essa questão em relação ao Estado da Paraíba, iremos chegar à conclusão de que existem, no seu meio rural, um pouco mais de 900 mil pessoas! Portanto, muito aquém dos 2,7 milhões referidas na matéria analisada. Além do mais, o projeto da transposição encontra-se com sérios problemas, não só em sua execução física, mas, e principalmente, na esfera política. É preciso que sejam esclarecidas as assertivas levantadas pelo Ministro Fernando Bezerra, ao comentar na matéria “ TCU vê R$ 734 milhões em irregularidades nas obras do São Francisco” editada no Portal da Globo, as pendengas existentes no projeto desde quando assumiu a pasta da Integração Nacional. Isso é importante que seja esclarecido à população do Nordeste seco, tendo em vista não ser prudente que se continue a iludir o povo da forma como se vem procedendo, principalmente quando o assunto diz respeito à água, substância mantenedora da vida.

 por João Suassuna — Última modificação 26/08/2013 09:26

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