quarta-feira, 21 de agosto de 2013


 
                

Por vidas menos secas

Pesquisadores discutem os avanços na previsão de situações extremas no Nordeste e apontam alternativas para adaptar a região ao ciclo interminável da seca, trazer desenvolvimento ao interior e evitar os efeitos de possíveis mudanças no clima.


Por: Marcelo Garcia
Publicado em 31/07/2013 | Atualizado em 31/07/2013
O gado bovino é um dos primeiros a sentir os impactos da seca. Para construir um sistema produtivo adaptado a tais condições extremas, é preciso aproveitar bem os escassos recursos hídricos. (foto: Cleber Machado/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)
Não é preciso ser alarmista nem se enveredar por cenários pessimistas sobre mudanças climáticas para perceber: a situação da água é preocupante em todo o mundo. A população mundial quase triplicou desde 1950 e o desenvolvimento trouxe novas demandas de produção e novos hábitos de consumo e higiene, o que pressiona cada vez mais nossos recursos naturais, em especial a água. No Nordeste do Brasil, onde a preocupação com a seca vem de longa data, está em curso uma das piores estiagens das últimas décadas. Mas o que deve ser feito para adaptar a região e promover seu desenvolvimento mesmo sob tais condições?
“Hoje, um bilhão de pessoas não têm acesso seguro à água para beber e as áreas com tendência à desertificação no mundo têm crescido, inclusive no semiárido nordestino, por fatores como o mau uso do solo e a derrubada da cobertura vegetal”, avaliou o engenheiro José Almir Cirilo, secretário de recursos hídricos e energéticos de Pernambuco, durante mesa-redonda realizada na 65ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. No contexto global, a questão já vem gerando tensões internacionais. No Nordeste, não se fala em guerra, mas a seca atual tem deixado o clima mais ‘quente’, segundo Cirilo, com disputas locais pela utilização de reservatórios ainda não exauridos.
Cirilo: “Hoje, um bilhão de pessoas não têm acesso seguro à água para beber e as áreas com tendência à desertificação no mundo têm crescido, inclusive no semiárido nordestino”
No total, o semiárido nordestino abriga 22 milhões de pessoas, quase metade delas em áreas rurais. Ao contrário do que se pode pensar, o histórico problema na região não acontece por falta de chuvas, como explicou o meteorologista Antonio Divino Moura, diretor do Instituto Nacional de Meteorologia. “O problema seria, então, a gestão dos recursos? Também, mas não só isso”, afirmou. “Existe um conjunto de fatores desfavoráveis: chuvas muito mal distribuídas, evaporação muito intensa, solos rasos que acumulam menos água, salinização da água pela presença de rochas cristalinas e falta de aquíferos de grande porte.”
As perspectivas de mudanças climáticas podem agravar o cenário. Um estudo feito por Cirilo avaliou o possível efeito do aquecimento global sobre as barragens do rio São Francisco: considerando apenas o aumento do intervalo de dias sem chuva, sem redução do volume pluviométrico total, a pesquisa mostrou que os mananciais passariam mais tempo secos, encheriam mais rápido e perderiam mais água – uma redução que poderia chegar a 30% no volume desses reservatórios.

O clima sob análise

Um importante fator para prevenir o impacto negativo das secas é uma acurada previsão meteorológica, que consiga prever esses acontecimentos intensos. Moura explicou que essa ciência ainda é relativamente nova no Brasil e os conhecimentos sobre o clima do Nordeste também, mas já têm contribuído bastante para a tomada de decisão e a adaptação da região em busca de um desenvolvimento sustentável mesmo diante de condições severas.
“Há 30 anos ninguém estudava o Nordeste, mas hoje existe mais conhecimento sobre a dinâmica climática da região, a importância de cada componente, é possível identificar tendências de seca e inundações”, destacou Moura. Um passo importante para conhecer melhor o clima da região, segundo o meteorologista, é estudar a história – um modelo climático melhor do que qualquer simulação. “Recuperar essa memória é importante para entender a variabilidade natural do sistema e avaliar possíveis mudanças climáticas”, afirmou. “No entanto, a tarefa é complicada: temos acervos com mais de 12 milhões de documentos, desde a época do Império, mas tudo em papel e em estado muito frágil.”
Mapa de volume de chuvas no Nordeste
Desde 2012, o Nordeste enfrenta uma forte seca, com um volume de chuvas muito reduzido no sertão, como mostra o mapa. O desenvolvimento da meteorologia nas últimas décadas tem ajudado a diminuir os impactos do fenômeno, ao permitir uma maior compreensão de seus determinantes e a realização de previsões mais exatas das dificuldades que serão enfrentadas a cada ano. (imagem: Inmet)
Para Moura, o maior conhecimento meteorológico ajuda a explicar, por exemplo, os diferentes impactos da seca de 1877, considerada a pior da história por ter causado milhares de mortes, e da seca de 1998, também muito grave, mas sem casos fatais. Cirilo destacou outros dois fatores que ajudaram a minimizar o drama nos últimos anos: o desenvolvimento do país e os benefícios sociais concedidos aos habitantes da região.

Mitigação e adaptação

Desde o ano passado, no entanto, o Nordeste vem sendo fustigado por uma forte seca, após alguns anos de refresco – de fevereiro a abril de 2013, choveu menos de 50% do normal em diversas regiões, índice muito abaixo da média histórica. Para tentar fugir desse ciclo sem fim, muitas tecnologias têm sido empregadas na região e está em andamento uma das maiores obras hidráulicas do mundo, a transposição do rio São Francisco.
De fevereiro a abril de 2013, choveu menos de 50% do normal em diversas regiões do Nordeste
Segundo Cirilo, medidas simples já podem significar um grande avanço. “Toda casa deveria ter cisternas para acumular água da chuva, precisamos investir em poços, barragens subterrâneas, equipamentos de dessalinização da água para extrair o recurso de leitos cristalinos e no terraceamento para otimizar recursos hídricos na agricultura”, exemplificou. Entre os gastos, há o custo de manutenção dos equipamentos – para o engenheiro, um emprego de recursos muito mais eficiente do que a contratação de caminhões-pipa.
A falta de adequação das atividades econômicas da região à seca compôs, segundo Cirilo, a ‘cara’ do evento atual, marcada pelas imagens impactantes do gado morto. “A área do agreste não é boa para produzir gado bovino”, afirmou. “Mas, com a melhora da qualidade de vida e vários anos de invernos chuvosos, o otimismo aumentou e as pessoas investiram em pequena pecuária, que recebeu o primeiro e mais severo impacto do clima.”
Transposição do rio São Francisco
Obra polêmica, a transposição do rio São Francisco é vista por alguns como a única alternativa para o desenvolvimento do interior do Nordeste. As águas do Velho Chico abastecerão cidades e serão utilizadas, inclusive, para o desenvolvimento da agricultura no oeste de Pernambuco. (foto: PAC 2/ Flickr – CC BY-NC-SA 2.0)
Pensar em alternativas de combate à seca em longo prazo passa, segundo o engenheiro, pela busca de opções para suprir a necessidade de água já existente. “Em Pernambuco, por exemplo, a única forma de atender a demanda de cidades como Feira de Santana e Caruaru, com mais de 300 mil habitantes, é a transposição das águas do São Francisco”, avaliou. “Estamos apostando todas as nossas fichas nisso, não temos mais recursos hídricos locais a serem aproveitados, não há mais onde construir barragens.” Apesar do otimismo do secretário de recursos hídricos e energéticos de Pernambuco, a obra, orçada em R$ 8,3 bilhões, foi severamente criticada em outra mesa-redonda na reunião da SBPC.
Para adaptar de fato a região à seca, no entanto, Cirilo destacou a necessidade de incentivar atividades econômicas que levem desenvolvimento ao interior. “É o que pretendemos fazer em parte do agreste com a transposição: estimular a produção de alimentos, a agroindústria, onde os solos são mais favoráveis”, explicou. “Nesse caso, não é só trazer a água, mas investir no armazenamento, processamento e escoamento; por isso, vai ser implementada a ferrovia transnordestina, que ligará o interior aos portos, a preços competitivos”, completou.
 
Marcelo Garcia
Ciência Hoje On-line

COMENTÁRIOS
João Suassuna - Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, Recife


Algumas questões em relação às opiniões de Almir Cirilo. Primeiramente, as águas do São Francisco, para uso no Estado de Pernambuco, deveriam ser conduzidas por intermédio de adutoras, que tivessem início na margem do rio e não sendo derivadas de um canal faraônico (Eixo Leste da Transposição), o qual vem sugando os cofres públicos, prejudicando o meio ambiente e, como se isso não bastasse, esvaziando o bolso do cidadão brasileiro. Pernambuco, já tem experiências exitosas na adução de águas do rio São Francisco. A adutora do Oeste, por exemplo, abastece o município de Araripina, bem como a adutora de Salgueiro, atende a cidade de mesmo nome. A cidade de Caruaru, citada na matéria, poderia ser igualmente abastecida com as águas do Velho Chico, por intermédio de uma adutora que iniciasse seu curso, da beira do rio, e se estendesse pela região Agreste do Estado, atendendo os municípios que apresentassem déficit hídrico. Em segundo lugar, não concordamos, em absoluto, com a afirmativa de Cirilo de que “A área do agreste não é boa para produzir gado bovino”. Nesse sentido, o Secretário deveria estar mais atualizado de informações sobre a pecuária adaptada a climas secos, a exemplo do gado vacum oriundo da Índia (Guzerá) e do Paquistão (Sindi), que vêm sendo criados com êxito no Semiárido paraibano e, principalmente, sobre os caprinos e ovinos deslanados, que representam cerca de 92% do efetivo nacional, desse tipo de pecuária, nos limites do Nordeste seco.    
 

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