sábado, 13 de abril de 2013


sábado, 23 de março de 2013


Estudo


Reflexões sobre "a Seca", por Apolo Heringer Lisboa.


Prezados Patrocinio Tomaz e João Suassuna, estou lendo uma tese sobre o São Francisco onde se lê: “Não se deve esquecer que a seca de 2001 foi considerada a pior dos últimos 60 ou 70 anos.” Lendo os jornais e comentários populares se diz que a atual seca, 2012-2013 é a maior dos últimos 40 anos. Se forem verdadeiras as duas afirmações se poderia concluir que a atual seca é a maior em um século! Pergunto: não seria oportuno que se publicasse algo como um breve histórico das secas no semi-árido para se ter uma referência melhor dessa história das secas? O Manoel Bomfim Ribeiro, num dos seus últimos trabalhos, um artigo, dizia (estou usando a memória mais geral) que uma senoidal baseada em pesquisa mostrava que desde o século XVI as secas ocorriam em períodos aproximados de um pouco mais de 30 anos. Onde ele encontrou esses dados para citar isso e assim a gente retomar o tema? A ideia que está prevalecendo na sociedade é que a seca é imprevisível, não uma quase certeza. E que nada pode ser planejado, além de rezar. Como sempre! Pois deve estar havendo um carnaval sobre a realidade das secas não é? Seria muito útil que alguma coisa fosse dita por estudiosos e que a população brasileira fosse informada. Eu não sou o mais indicado. Algum de vocês se habilita a escrever algo? Apolo Lisboa, Projeto Manuelzão - MG
José do Patrocínio Tomaz Albuquerque - Consultor e Professor aposentado da Universidade Federal de Campina Grande.

Prezado Apolo

Este é um tema de abordagem muito difícil por sua complexidade científica e por seus efeitos socioeconômicoa. O nosso saudoso companheiro de lutas sanfranciscanas, Manoel Bonfim Ribeiro, em seu livro “A Potencialidade do Semi-Árido Brasileiro”, tratou do assunto, dedicando-lhe um capítulo, o 15º. Ele, inclusive, comentou a relação da seca com os fenômenos El Niño e La Niña e também o trabalho de técnicos do Centro Tecnológico da Aeronáutica (CTA) que defende uma ciclicidade de 26 anos entre as grandes secas, as quais ocorreriam (e as pequenas, também) segundo um movimento senoidal (a senóide de Fourier). Por essa metodologia, o período 2005-2011 seria de grande seca no Semi-Árido Nordestino. Sabemos que não foi. Ao contrário, foi de chuvas regulares, às vezes abundantes, como as ocorridas em 2004. Por outro lado, a cronologia das secas, comparada com a ocorrência do fenômeno El Niño revela que, como escreveu o Dr. manoel Bonfim Ribeiro, “nem toda seca ocorre conjuntamente com o El niño (seca de 1932)” e acrescento, às vezes está associado ao La Niña, este, em princípio, um fenômeno benéfico de chuvas no Semi-Árido. Isto tudo mostra como a previsão é controversa. Muitos autores relacionam a ocorrência das secas com a exacerbação das atividades (erupções) solares. A seca atual, por sinal, coincide com o aumento da erupções verificadas na superfície do Sol nos dois últimos anos. Esta intensificação da atividade solar ocorreria a cada 11 anos, em média. Se a última grande seca foi a de 2001, a de 2012 (ainda em curso no presente ano de 2013) seria uma consequência do açodamento destas erupções. Mas, teria sido sempre assim? Não sei. Outrossim, o que é uma grande seca? Sob que ponto de vista (meteorológico, hidrológico, socioeconômico)? Eu, pelo que tenho sentido, penso que esta é a mais devastadora das secas ocorridas desde que se tem observações hidrometeológicas e socioeconômicas (ênfase ao colápso das atividades agropecuárias). Sim, porque das ocorridas em séculos anteriores ao XXº, somente se tem notícias, não observações. Além disso, as secas ocorrem irregularmente, no espaço Semi-Árido: em certas áreas ou bacias hidrográficas ocorrem, em outra, não. A tipologia também varia (secas edáfica e secas hidrológicas). Mas, apesar de tudo isto, de todas as controvérsias, acho que existe um princípio que se deve adotar para enfrentá-las em seus efeitos. É o princípio da prevenção, contido no axioma latino “se vis pacem, para bellum” ou, em nosso vernáculo, “se queres a paz (minimizar ou anular efeitos) prepara-te para guerra (a seca)”. Se não sabemos quando ela vem, que estejamos sempre preparados para quando ela acontecer, qualquer que seja o tempo. E em que consiste isto? Em guardar o excedente de produção, renovado ano após ano bom de chuvas, de modo a suprir as deficiências, no todo ou em parte, dos anos ruins. Para o abastecimento hídrico das populações humanas, urbana e rural, que este seja realizada a partir das fontes de suprimento 100% garantidas (açudes e aquíferos com capacidade de fornecer vazões regularizadas permanentemente, o que é fornecido pela grande açudagem e por alguns aquíferos existentes no Semi-Árido, a exemplo dos contidos nas bacias sedimentares de Tucano/Jatobá, Parnaíba, entre outros, e alguns aquíferos aluvio/coluviais), qualquer que seja o evento hidrometeorológico. O Atlas Brasil e, particularmente, o Atlas Nordeste, nem sempre contemplam essas exigências. Para o abastecimento de gêneros alimentícios, pelo armazenamento do excedente de produção dos anos bons, quando, consumada a estação das chuvas, as águas contidas na micro, pequena e média açudagem devem ser aproveitadas na produção de cultivos de pequeno ciclo em período de evapotranspiração menor (até agosto ou setembro de cada ano), devendo-se evitar o uso no período de maior consumo de água (Outubro ou Setembro a Dezembro de cada ano), quando as necessidades de águas são triplicada ou até, conforme o cultivo, quintuplicadas. Já nos anos onde a seca se instala, após o plantio de subsistência, socorrê-las pela irrigação de salvação, onde possível, já que não é em todo canto que existe ainda água armazenada e nem toda área se presta a ser irrigada. Há que se fazer um mapeamento desta açudagem e destas áreas.

Para tudo isso, é fundamental dispor de um sistema de armazenamento (silos, inclusive, os do tipo “trincheiras”), onde se guardam os o excedente de produção de grãos e a forragem do gado de tipos nativos ou adaptados às condições hidroclimatológicas do Semi-Árido. Isto (armazenamento), por sinal, é um problema de dimensão nacional (vide o que está acontecendo com a produção de grãos do sudeste e centro-oeste brasileiros). Neste sentido, de política agropecuária, a produção de grãos ou de alimentos diversos, em outras regiões que não a Semi-Árida, deve ser voltada, também e primordialmente, para o abastecimento interno, guardando, inclusive uma parte da produção para o suprimento de anos e regiões onde ocorram escassez. Somente o excedente é que deveria ser exportado. Não é o que acontece. O milho, por exemplo, está faltando para o alimento do gado brasileiro, principalmente o estabelecido no Semi-Árido, mas, mesmo assim, está sendo destinado para o consumo do exterior, inclusive, porque não tem onde seguardar (2,5 milhões de toneladas, segundo a VEJA desta semana, 02/040. Um absurdo!

Este é o meu entendimento sobre o problema da seca e suas consequências.

Abraços,

Patrocínio

João Suassuna - Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, Recife

Caro Apolo,

Quem melhor definiu o fenômeno da seca, na minha modéstia opinião, foi Guimarães Duque. No seu livro “O Nordeste e as Lavouras Xerófilas” ele exemplifica o regime de precipitações em uma dada região do sertão paraibano (o açude de São Gonçalo, Souza), mostrando a loteria existente na ocorrência das chuvas na região Semiárida. No ano de 1958, por exemplo, choveu 535 mm (acumulado no ano). No mês de março daquele ano, choveu 275 mm (51% da chuva caída em todo ano, ocorridos em um único mês) e no dia 28 de março ocorreu uma chuva de 127 mm, ou seja, essa chuva representou 46% de todo o volume caído no mês de março. Uma situação inusitada e que bem exemplifica o que ocorre, de resto, em todo o Nordeste seco. O que Duque quis dizer com isso? Quis dizer o seguinte: o que caracteriza uma seca não é a falta de água. É a forma errática de como as precipitações ocorrem, na maioria das vezes mal distribuídas no tempo e no espaço. A seca de 1958 foi um bom exemplo disso, pois foi considerada uma das maiores já ocorridas no Nordeste seco, sendo os seus efeitos responsáveis, inclusive, pela criação da Sudene.

No meu modo de entender, como de regra, as secas sempre existem na região semiárida nordestina, independentemente se o ano é bom ou ruim de chuvas. Chego a essa conclusão, baseado no fato de as chuvas se concentrarem em 4 meses do ano, e nos 8 meses restantes não cair uma gota d´água sequer. Essa situação é agravada, ainda, quando as chuvas ocorrem em volumes abaixo da média, situação essa que pode perdurar nos anos subsequentes, como é o caso desse período que estamos vivenciando no momento: o ano de 2012 foi considerado seco, e o de 2013, já estamos na metade da quadra chuvosa, e os meteorologistas já estão informando que será igualmente seco. Caso essa situação se confirme, existe uma enorme possibilidade de termos um ano igualmente ruim engrenando com um outro que foi péssimo, e o resultado disso é essa catástrofe que estamos acompanhando na mídia de um modo geral e que tem preocupado a todos os brasileiros.

Na questão do estudo do CTA, oportunamente lembrado pelo nosso saudoso Manoel Bomfim em seus apontamentos, lembraria apenas que esse estudo afirma a existência de secas menores, em intervalos de 13 anos, quando analisados os períodos maiores de sua ocorrência, de 26 anos. Provavelmente, a seca vivenciada na atualidade está contida em um desses intervalos menores. Anexo a esse rápido comentário, o estudo do CTA.

Abraço

João Suassuna

José do Patrocínio Tomaz Albuquerque - Consultor e Professor aposentado da Universidade Federal de Campina Grande.

Prezados João Suassuna e Apolo Heringer Lisboa

Já tinha lido o trabalho do CTA dos Girardi, acho que pai e filho. Aliás, eles estiveram aqui em João Pessoa, onde fizeram uma palestra nas dependências da EMBRAPA que assisti. Se não me falha a memória, lá estava presente o nosso ilustre amigo Manelito Vilar. Na ocasião, se, mais uma vez não me falha a memória e o ouvido não me traiu, o Dr. Manelito fez uma observação que, posteriormente, se verificou pertinente, e que foi a seguinte: “todo sertanejo sabe, por experiência, que a era de 4 é, sempre, de muita chuva”, ao contrário da previsão que está no texto do trabalho e que reproduzo: “Nesta figura também pode ser observado que as curvas de tendência indicam que deverá ocorrer um período de estiagem na região Setentrional do Nordeste Brasileiro, cujo início deve ocorrer entre 2002 e 2003 e o término deve ocorrer entre 2010 e 1011, sendo que, os piores anos tendem a estar entre 2004 e 2008.” A figura a que ele se refere é a de Nº 14. Sabemos que o período citado foi de bonança chuvosa (alguns veranicos se verificaram, mas não uma seca prolongada) com o ano de 2004 sendo de chuvas profusas, muito acima da média. O ano de 2004, inclusive, marcou a retomada da sangria dos grandes açudes do Semiárido, fenômeno que se repetiu nos anos seguintes. A minha participação, na palestra, foi uma pergunta sobre a representatividade da previsão, baseada no posto pluviométrico de Fortaleza, para o restante do Semiárido. Como está no texto, a correlação encontrada com outros postos pluviométricos sitados no oeste do Ceará, Rio Grande do Norte e Pernambuco foi de, 75% (na Fig. 1, a correlação apresentada é de 0,74). Isto significa dizer que, em 25 ou 26% dos casos, o que ocorre em termos de chuvas registradas no posto de Fortaleza, não acontece nos outros postos analizados, tanto em termos de módulo e, mais ainda, de regime. É, portanto, uma taxa muito grande de não correlação, taxa esta que, segundo os autores do trabalho, “sofre gradativa diminuição à medida que nos afastamos para fora desse limite” (da área estudada, acrescento). Portanto, a previsão está sujeita a falhas em 25, 26 % ou mais, o que ocorreu no intervalo de tempo admitido como de ocorrência de seca. Deixa de ser relevante, a frequência, se de 26 ou de 13 anos, mesmo porque, está lá na Fig. 15, a previsão para o período 2012-2028 é de chuvas médias ou acima delas no posto de Fortaleza e, portanto, nos postos a ele correlacionáveis. Mas, como se pode depreender de minha mensagem ao amigo Apolo, isto não se afigura como um fator indispensável à tomadas de medidas que permitam minimizar ou, mesmo, anular (em alguns casos e espaços) os efeitos das secas.

Abraços,

Patrocínio

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