terça-feira, 30 de julho de 2013

No Semiárido, cisternas de cimento ou cisternas de plástico dividem opiniões.

Publicado em julho 30, 2013 por


 
cisterna de cimento
 
Cisternas de cimento ou cisternas de plástico? Esse é um debate que ganha calor no quente Semiárido nordestino e foi disparado em Brasília. O Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) apoia os reservatórios de água construídos a partir de placas de cimento, tecnologia que tem intimidade com a região. O Ministério da Integração Nacional (MI), que chegou mais tarde no esforço de universalizar o acesso à água de qualidade para os moradores das zonas rurais, distribui cisternas de polietileno. Batizadas de “cisternas de plástico”, a opção da Integração Nacional tem que vencer as críticas das entidades sociais que atuam no Semiárido, a desconfiança da população e o calor nordestino. Reportagem de Daniela Chiaretti , no Valor Econômico, socializada pelo ClippingMP.
Os dois tipos de reservatórios captam água da chuva e têm capacidade para estocar até 16 mil litros, o suficiente para atender às necessidades de uma família de cinco pessoas durante seis meses de estiagem. Essa água é usada para beber água, escovar os dentes e cozinhar – o que na região se chama de “primeira água”.
A cisterna de placas custa R$ 2.400 e é construída com mão de obra local. A de plástico custa R$ 5.000, computando-se instalação. As duas opções, ao lado de outros tipos de tecnologias para reservar água para a produção e animais, fazem parte, desde 2011, do programa Água para Todos, coordenado pelo Ministério da Integração Nacional. A meta é beneficiar 750 mil famílias até 2014.
“Esse é um debate muito apaixonado”, reconhece Arnoldo de Campos, secretário de Segurança Alimentar e Nutricional do MDS. “Entendemos que há várias formas de fazer este trabalho, que não existe caminho único.” O MDS trilha há vários anos o caminho desenhado pelas entidades sociais, de construir cisternas de placas de cimento, capacitando agricultores familiares no processo e movimentando a economia local ao comprar materiais na região.
“O MDS têm uma relação com as entidades sociais desde o nascimento. Essa solução estava desenvolvida e resolvemos adotá-la”, explica. Ele refuta a ideia de que as cisternas de polietileno são alternativa ruim e deformam com o calor. “Existem em todos os condomínios de luxo do país”, diz.
Com o reservatório de cimento, o agricultor José Maria da Costa não precisa mais do jumento para buscar água
“A opção pela cisterna de polietileno foi para agilizar o processo”, afirma Walber Santana Santos, diretor de gestão de programas de desenvolvimento regional do MI. “É usada em países com Semiárido mais agressivo do que o nosso.” O ministério já tem as 300 mil cisternas de polietileno contratadas e até agora, diz Santos, apenas 160 apresentaram defeitos. “O polietileno é resistente e a cisterna é feita para esse clima. Não derrete, não contamina a água e pode durar 30 anos”, diz. “Não é uma tecnologia que veio competir com a outra, são complementares.”
Essa não é a visão de Naidison Baptista, coordenador-executivo da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) pelo Estado da Bahia, para quem a concentração de terra no Semiárido está intimamente ligada à concentração de água. A ASA é uma rede formada por 3.000 organizações da sociedade civil que atuam na região e foi o pivô da sugestão do programa de construção de um milhão de cisternas.
Baptista não gosta da expressão “combate à seca”, lembra que se trata de fenômeno natural e que é mais adequado pensar em “conviver com o Semiárido”. Não é semântica. “Políticas de combate à seca geram dependência. Na ASA buscamos outra lógica.” Para ele, a diferença entre cisterna de placa e de plástico vai além do material – as primeiras são um processo; as de polietileno, uma doação, diz. “Políticas assistencialistas, em vez de libertar, acorrentam a população.” Acredita que é preciso desenvolver “a política do estoque” para água, mantimentos, sementes. “Quem guarda usa no momento de mais necessidade.”
No governo federal existem R$ 4,5 bilhões para a execução do programa. Desse total, R$ 2,6 bilhões correspondem à Integração e R$ 1,9 bilhão ao Desenvolvimento Social. Está em curso nova geração de tecnologias de “convivência com o Semiárido”, com foco na produção e nos animais. Nessa nova fase há forte apoio da Petrobras, que está investindo R$ 200 milhões em tecnologias de armazenagem de água para produção de alimentos e para os animais.
A segunda geração de tecnologias de cisternas chega para quem já tem a da água de beber. Uma delas é a cisterna-calçadão. Constrói-se um calçadão de cimento de 200 m2 em área de declive. Assim, 300 mm de chuva enchem o reservatório de 52 mil litros.
“Eu me criei aqui. Era uma casa de barro”, conta Maria Nogueira, 80 anos. “Meu pai fez a casa em 1947. Água era só no açude. Buscava numa latinha, na cabeça. Hoje temos água encanada em casa.” Maria é moradora de Caiana, comunidade de 80 famílias, zona rural de Campo Grande. O município fica a 130 quilômetros de Mossoró, cidade do Rio Grande do Norte que ganhou fama como o lugar que mais produz petróleo em terra no país. Mas em Campo Grande a história é outra. É entrar na zona rural e ver casas de taipa, o barro armado na madeira.
Maria tem uma cisterna-calçadão no terreno onde vive com o filho Antonio. Plantam feijão, milho e sorgo. “Vou fazer mais plantio”, promete. Também têm algumas cabeças de gado e ovelhas. “Se não tivesse as cisternas, não sobrevivia”, diz Antonio.
A dona de casa Iolene dos Santos, de Surubim-PE, tem água para cozinhar e beber, mas a cisterna nova já precisa de reparos
Na casa do agricultor José Maria da Costa, 55 anos, além da cisterna de placa há a barraginha. É uma pequena barragem, com água suficiente para aguentar 4 meses de seca e dar de beber aos animais e regar a plantação de milho, feijão e melancia. Ali ele vive com a mulher Expedita e cinco filhos. “A gente tinha que buscar água de jumento, era difícil”, lembra Expedita, que deixou o jumento “pro meio do mundo”. Ela agora tem água e tempo. Começou a fazer doces de goiaba. Faz 40 quilos por mês e ganha R$ 1 mil. “Comecei este ano”, diz. Com o dinheiro, comprou a mesa e as cadeiras da cozinha.
Na zona rural de Campo Grande não há quem não fale da chuva de 19 de abril. Naquela sexta-feira à noite, durante 13 horas, choveu 150 mm. Foi uma das dez maiores precipitações em 110 anos. “Em uma noite encheu a cisterna”, lembra a agricultora Damiana Fernandes da Silva. “E tem gente que perdeu, que não botou a calha.” Cisterna e calha são palavras vitais para quem vive por ali.
Caiena é área humilde, mas as coisas estão mudando por lá e essas espécies de mini-espaçonaves caiadas de branco ao lado de cada casa têm sua parcela de responsabilidade. Todas as famílias da comunidade rural têm sua cisterna de placa. O funcionamento é simples. A primeira chuva que vem depois da estiagem lava as telhas. Os agricultores recolocam as calhas e os canos de PVC, retirados durante os meses de seca para que não estraguem. Começam a estocar água depois da segunda chuva. Retiram a água através de uma pequena bomba manual. Cursos de gestão ensinam os agricultores a cuidar da água, fazer reparos e construir cisternas.
Na pior seca dos últimos 50 anos, não houve êxodo rural, saques ou corre-corre de carro-pipa. “É política social na veia”, diz a economista Tania Bacelar de Araújo, que cita a aposentadoria garantida pela Constituição Federal e o Bolsa Família. “Veio a seca, mas não tem mais fome aguda. Ninguém precisou sair da região ou saquear o supermercado. Agora podem comprar”, diz a professora do programa de pós-graduação em geografia da Universidade Federal de Pernambuco. “O problema agora foi que faltou água para produzir e para os animais.”
A jornalista viajou ao Semiárido a convite da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA)
EcoDebate, 30/07/2013
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COMENTÁRIOS
João Suassuna -Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, Recife
Não sou adepto ao uso da cisterna de plástico no Semiárido nordestino. Independentemente das críticas que são feitas a esse tipo de reservatório, como o preço elevado, sabor desagradável transferido para a água, danos causados pela temperatura ambiente, entre outros, o que me deixa mais perplexo diz respeito ao transporte da cisterna para o interior do Nordeste seco. Normalmente, esse transporte é feito por intermédio de caminhões (carretas) que têm capacidade de deslocar cerca de 22 toneladas. Ocorre que o formato das cisterna de plástico - elas são detentoras de uma espécie de gargalo - impossibilita o transporte de um número razoável de cisternas por viagem do caminhão, o qual, para esse tipo de reservatório, só permite o transporte de 5 unidades por viagem. Uma cisterna de plástico, pesa em torno de 300 kg, ou seja, um caminhão, que tem a capacidade de transportar 22 toneladas, irá fazê-lo com apenas 1,5 toneladas (equivalentes ao transporte de 5 cisternas) e nada mais. Na verdade, estar-se transportando "ar" nas 5 cisternas. Quem vive do frete, se delicia com esse tipo de conversa, ao fazer os cálculos de transporte dos reservatórios previstos pelo Programa "Um Milhão de Cisternas" do Governo Federal.


Ricardo Ramalho - Movimento Minha Terra
João Suasuna
São muito pertinentes suas observações sobre mais esse ponto negativo da opção pelas cisternas de plástico. O transporte, dessa forma, se transforma em um custo, sobretudo, ambiental relevante pela ineficiência do modelo adotado.
Quanto ao sabor desagradável necessitamos de dados técnicos mais precisos para acrescentarmos esse item ao rol de aspectos negativos das cisternas de plástico.
Outra questão que necessita ser investigada, cientificamente, é a possibilidade de geração de resíduos prejudiciais à saúde humana quando a água armazenada é submetida às altas temperaturas do semiárido nordestino. Não podemos fazer afirmações irresponsáveis, mas, existem indicações de que essa "mistura" pode produzir dioxinas e outras substâncias nocivas à nossa saúde em situações "semelhantes" como nos fornos microndas. Portanto, quando se trata de saúde das pessoas toda precaução deve ser adotada e os questionamentos respondidos, principalmente, por aqueles que aplicam a tecnologia.
 
Ecossaudações
 
Ricardo Ramalho
Movimento Minha Terra
ricardoaldeiaverde@uol.com.br

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