terça-feira, 5 de agosto de 2014

O São Francisco já é um rio intermitente, artigo de Roberto Malvezzi (Gogó) Embora não tenha cortado totalmente seu fluxo de água, o São Francisco já é praticamente um rio intermitente. A atual defluência – saída de água rio abaixo - da represa de Três Marias, em Minas Gerais, é de 150 m3 por segundo (sic!). Não se espantem, é essa mijada de gato. Portanto, um fiapo de água para o que já foi o grande Rio São Francisco (CBHSF). Essa realidade é visível a olho nu em municípios como Pirapora. Até a extração de água para abastecimento humano das cidades ribeirinhas já está comprometida. Se formos fala em navegação, pesca, etc., é melhor procurar nas fotografias. A cidade de Xique-Xique, no médio São Francisco, se abastece de um braço do Velho Chico. Em 40 dias – se o rio não recuperar volume – terá seu abastecimento cortado. A calha central está há mais de trinta quilômetros da cidade. Portanto, Xique-Xique vai conhecer o que é um rio intermitente antes das demais cidades. Abaixo, em Sobradinho, a defluência está em 1.100 metros cúbicos por segundo. As maiores balsas de transporte de passageiros entre Juazeiro e Petrolina estão encostadas no porto. Não há profundidade para sua navegação. Gostaria de saber onde andam os políticos, os técnicos, o pessoal do governo que projetou a Transposição e nos diziam com arrogância em todos os debates que a defluência em Sobradinho era - com absoluta segurança - de 1800 metros cúbicos por segundo, portanto, a extração de água para a Transposição seria absolutamente insignificante. Onde será que eles estão? Em terceiro, abaixo de Xingó, no Baixo São Francisco, a defluência também continua com 1.100 metros cúbicos por segundo, comprometendo até a produção de água para consumo humano e para a bacia leiteira de Alagoas. Sergipanos e alagoanos são os que pagam a conta de toda degradação e irresponsabilidade de quem destrói o São Francisco. Na foz, o mar já adentrou o rio em cerca de 50 quilômetros. Hoje ainda se fala na Transposição, ela continua na mídia, por muitos considerada ainda como a redenção do Semiárido. Vamos respeitar a ignorância dessa afirmação, afinal o Nordeste e o Semiárido continuam desconhecidos para 90% dos brasileiros, mas vale lembrar que 40% do Semiárido brasileiro estão em território baiano, portanto, longe dos eixos da Transposição. Quantos ainda falam da Revitalização? Alguém tem alguma notícia? O São Francisco continua em processo de extinção rápida e fatal. Mesmo assim fala-se em projetos de 100 mil hectares de cana irrigada em Pernambuco, 800 mil hectares de cana irrigada na Bahia, Transposição para outros estados, assim por diante. Certamente voltará a chover, o rio vai recuperar volume, mas, as secas serão cada vez maiores e mais constantes. A NASA, anos atrás, projetava que o São Francisco seria um rio intermitente em 2060. Realizamos a façanha de antecipar a projeção em mais de 40 anos. Roberto Malvezzi - É membro da Comissão Pastoral da Terra (CPT) - Bahia COMENTÁRIOS João Suassuna - Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, Recife O que havíamos previsto, nos últimos 20 anos de muita luta, aconteceu: o Velho Chico entrou em estado crítico e já não vai mais poder contribuir, com seus volumes, para o atendimento das necessidades dos nordestinos, sem, antes, acontecer o pior. Nesse artigo, Roberto Malvezzi mostra, de maneira clara, que o rio está dando seus últimos suspiros. Não foi por falta de aviso que essa situação viesse acontecer. Nos debates que participamos, na tentativa de salvar a vida do rio, alertávamos para o pior: por ser um caudal de múltiplos usos, e sem o planejamento devido, era fácil de se chegar à conclusão de que o São Francisco secaria ou pelo menos chegaria à situação em que se encontra. Questionamos isso ao ex-ministro Ciro Gomes, no programa Roda Vida em São Paulo, onde debatemos a questão, que não deu a mínima atenção para as nossas preocupações. Chegamos até a escutar absurdos, de algumas autoridades de que, mesmo colocando um equipamento ultra sensível na margem do rio, este não seria capaz de medir a variação de seu nível, dada a pequena retirada volumétrica que iria ser efetuada. Erraram e erraram feio. O Velho Chico está aí, com a sua ossatura à mostra, para calar a boca daqueles que, em ato de pura imprudência e incompetência para com as causas ambientais, conseguiram por um fim na pujança do rio da Integração Nacional. Esse assunto terá que ser muito bem esclarecido na campanha presidencial que se avizinha. Ricardo Ramalho - Instituto Terraviva. Caro João Suassuna, Classifico a mensagem, embora verdadeira, como cruel e impactante. Não imaginava essa velocidade vertiginosa na decadência de nosso Velho Chico, pela sua imponência e serenidade, enquanto vital curso d'água para o Semiárido Brasileiro. Sem sequer entrarmos no mérito da famigerada transposição, o rio agoniza sob o ausente olhar do poder público nos seus três âmbitos. Continuam desmatando suas margens, assoreando seu leito e poluindo suas águas, contrariando os mais elementares princípios ambientais para uma propalada revitalização de sua bacia, com a absoluta inércia dos órgão que deveriam cuidar do meio ambiente. Lamentável, lamentável, lamentável! Ecossaudações Ricardo Ramalho Engenheiro agrônomo e ambientalista do Instituto Terraviva.

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