quinta-feira, 24 de abril de 2014


A Guerra da Água já começou.


"Não importa se você é de direita ou de esquerda, tucano ou petista, todo mundo precisa de água para sobreviver. E o fato crucial nessa discussão é que a água está acabando, e muito em breve não vai ter mais de onde tirá-la". O comentário é de Herton Escobar em artigo publicado no portal do jornal O Estado de S. Paulo, 20-03-2014.


Jornal O Estado de S. Paulo, 20-03-2014.

Por Herton Escobar

Há muitos anos ouvimos falar sobre a tal “guerra da água” que está por vir, quando os recursos hídricos se tornarem tão escassos que pessoas, municípios, estados e países começarão a lutar por eles, da mesma forma que lutam por petróleo, gás e outros recursos minerais essenciais ao seu desenvolvimento (ou, no casa da água, essencial à vida). Pois então: sinto informar, mas essa guerra já começou, aqui mesmo na região metropolitana de São Paulo, bem debaixo das nossas torneiras. Na verdade, já começou há muitos anos; faltava apenas uma grande seca para trazer o problema à tona por completo e colocá-lo à vista de todos.

O nível dos reservatórios que compõem o Sistema Cantareira vem caindo há vários anos; de praticamente cheios em 2010 para 76% em 2012 e para menos de 15% agora, em 2014. Enquanto que a demanda por água da região abastecida por eles só cresceu no mesmo período, com o aumento da população e o crescimento das indústrias.

Ou seja: dizer que está faltando água hoje porque não choveu ontem é tão correto quanto dizer que os alagamentos da cidade são culpa de um bueiro entupido. O problema, na verdade, é muito mais complexo do que se enxerga na superfície. A seca foi só a gota d’água que faltava. E as autoridades sabem disso.

“Não dá para olhar para o céu agora e dizer que está faltando água porque não está chovendo; é um problema anunciado há muito tempo”, disse, na semana passada, o diretor do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) de Guarulhos, Afrânio de Paula Sobrinho, depois de o governo do Estado anunciar que ia reduzir o volume de água destinado ao município pela Sabesp. O risco de desabastecimento da região metropolitana de São Paulo, segundo ele, já é conhecido e discutido no Estado desde 2004. “Agora, me diga, que obras foram feitas nesse período (para evitar o problema)?”.

Acusada de não economizar água o suficiente, Guarulhos passou a receber 15% menos água da Sabesp, e 850 mil habitantes da cidade agora vivem em esquema de racionamento: um dia com água, outro sem. E Guarulhos não pode fazer nada a respeito, pois não tem recursos hídricos próprios e quem manda na água do Estado é a Sabesp.

Assim funciona a Guerra da Água. As batalhas não são travadas com espadas ou metralhadoras, mas com canetadas políticas e econômicas. Na hora que a coisa aperta e as torneiras ameaçam secar, o governo do Estado (tucano) manda reduzir o fornecimento de água para Guarulhos (petista), mas não para a capital São Paulo (que também é governada pelo PT, mas tem muitos milhões de votos e de PIB a mais do que Guarulhos).

Mas não se prenda muito a esse enrosco político … Não importa se você é de direita ou de esquerda, tucano ou petista, todo mundo precisa de água para sobreviver. E o fato crucial nessa discussão é que a água está acabando, e muito em breve não vai ter mais de onde tirá-la. Até agora foi fácil ignorar o problema e continuar a tomar banhos longos, postergar obras e lavar a calçada com esguicho, pois, apesar da queda no nível das represas, ainda havia água suficiente para abastecer o desperdício da maioria. Mas eis que apareceu uma seca, e a Cantareira secou. E agora?

Guarulhos X São Paulo foi a primeira batalha. Agora começa a segunda, São Paulo X Rio de Janeiro, pelas águas do Rio Paraíba do Sul.

Soluções temporárias

Para evitar o racionamento (e o desgaste político) na capital, o governo paulista anunciou que vai quebrar o galho desviando água de outros sistemas e comprando bombas para sugar a água que está no chamado “volume morto” da Cantareira. Pode ser que isso evite maiores problemas por enquanto, mas não se iluda: o problema do abastecimento de água em São Paulo é grande, chegou para ficar, e não vai ser resolvido assim tão facilmente, com uma bomba.

Se não voltar a chover — e chover muito! — sobre o sistema Cantareira ainda neste verão, vamos tirar água de onde até o fim do ano? Se o verão acabar, e o nível do sistema estiver em 15%, é com 15% que vamos ficar até o verão de 2015. E se dermos o azar de também não chover no verão de 2015, vamos viver o mesmo problema tudo de novo, de forma ainda mias crítica, pois o “volume morto” que vai ser consumido agora não estará mais lá para salvar a pátria uma segunda vez. Economizar água também não será uma opção, pois não haverá mais o que economizar.

É fato: uma hora, a água vai acabar. E essa hora não está longe!

No longo prazo, fala-se também em trazer água do Vale do Ribeira, ao sul do Estado (uma das áreas mais preservadas de Mata Atlântica do País), para abastecer a capital. E as populações e o meio ambiente dessa região, como ficam? Pode ser que a água desviada não faça tanta falta hoje, mas um dia vai fazer. E aí, quem vai ficar com ela? A guerra continua.

Neste sábado, dia 22, é o Dia Mundial da Água. Vale botar a mão na cabeça e refletir um pouco sobre essa situação que estamos vivendo; parar de botar a culpa no clima e assumir nossa própria responsabilidade sobre o problema. Sabe aquele ditado urbano que diz “você não está no trânsito, você é o trânsito”? Pois então, o mesmo conceito vale para a água: A água não está acabando, nós é que estamos acabando com ela! Somos ao mesmo tempo as vítimas e os culpados por essa guerra.

COMENTÁRIOS

Ricardo Ramalho - Instituto Terraviva

João Suassuna:
Como outras questões socioambientais, tão dramáticas como a relatada,
imaginávamos que nossa geração não alcançaria, embora tivéssemos consciência
de que mais tarde, certamente, aportaria. Chegaram muito antes do que
esperávamos, infelizmente. O excelente artigo publicado, talvez por
definição de foco, deixa de abordar pontos cruciais que nos conduziram a
essa verdadeira calamidade. É necessário se analisar outros ângulos como a
política de concentração populacional nas megalópolis como São Paulo, a
intensa impermeabilização das áreas urbanas, o "desaparecimento"  por
drenagem e/ou poluição dos, outrora caudalosos e saudáveis, rios urbanos e
outras mazelas de nosso absurdo modelo civilizatório.

Ecossaudações

Ricardo Ramalho

 por João Suassuna — Última modificação 21/03/2014 15:52

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