terça-feira, 15 de janeiro de 2013


Rio São Francisco pode ser extinto, diz biólogo.


Após quatro anos de monitoramento do rio e das obras de transposição de parte das águas do São Francisco, o biólogo José Alves Siqueira, 41, e outros 99 pesquisadores alertam: o rio está em processo de "extinção inexorável".


Governo afirma que área afetada por transposição será recuperada

O professor integra a equipe da Univasf (Universidade Federal do Vale do São Francisco), em Petrolina (PE), contratada pelo governo federal para fazer o inventário da flora e da fauna ao longo de todo o trecho da obra.

Divulgação
O biólogo José Alves de Siqueira, da Univasf (Universidade Federal do Vale do São Francisco)

O resultado encontrado no rio e nos 469 quilômetros de canais está no livro "Floras das Caatingas do Rio São Francisco: História Natural e Conservação" (Andrea Jackobsson Estúdio). Leia os principais trechos da entrevista.

*

Folha - O título do primeiro capítulo do livro assusta: "A extinção inexorável do rio São Francisco". Como vocês identificaram esse processo e por que o consideram inexorável?

José Alves Siqueira - Eu fiz uma pesquisa minuciosa sobre todos os problemas históricos que ocorreram no São Francisco desde o seu descobrimento. A gente teve um dos rios mais piscosos do país. Com as barragens [Três Marias, Sobradinho, Paulo Afonso e Xingó], a gente perdeu todos aqueles peixes que sobem as corredeiras para se reproduzir. O São Francisco é o rio mais barrado do Brasil.

Se as coisas continuarem do jeito que estão, quanto tempo o São Francisco ainda tem?


A gente não tem como fazer um cálculo preciso. O processo está em curso, o rio está sofrendo profundamente com o desmatamento de suas matas ciliares.

Qual a participação da transposição neste processo?


Existe um passivo ambiental da obra, em torno de R$ 20 milhões, R$ 25 milhões. Esse recurso deve ser usado para implementar unidades de conservação. Podemos transformar o problema da transposição numa oportunidade.

Na prática, como a obra da transposição está colaborando com o processo?


Ainda não temos as respostas claras. A gente encontrou 62 espécies exóticas invasoras, que não são da flora brasileira, já nas áreas do canal. Quando ela [a invasora] chega, ocupa espaço de espécies nativas e provoca destruição das outras.

O senhor é favorável à obra?



A gente não está discutindo se é a favor ou contra porque a obra já está em curso. Hoje o nosso papel é tentar mitigar os impactos. Os impactos existem. [Mas] o que a gente pode fazer para tornar isso razoavelmente viável?

O senhor fala que ainda tem muito a se avançar nesse processo de mitigação dos impactos. Como?



Algo para ser feito em caráter emergencial [é] a implementação dos programas de recuperação de áreas degradadas. As grandes empreiteiras têm obrigação de implementar esses planos de recuperação. Isso não está acontecendo. Quando oferecem a possibilidade de fazer, fazem com espécies exóticas invasoras. A gente tem um conjunto de oportunidades que não pode perder vista. Não teremos uma segunda oportunidade. Não há nada de sensacionalista nisso. Não é uma crítica gratuita.

Qual o papel dessa estiagem prolongada no Nordeste neste processo de extinção do rio?



É mais um agravante porque a demanda por água aumenta. Os bancos de areia no São Francisco estão cada vez maiores. A gente está vivendo um processo de aquecimento global e a caatinga é o lugar do Brasil mais suscetível a essas mudanças climáticas.


Colegas:

A caatinga e o cerrado, floristicamente relacionados com a mata atlântica, estão sendo dizimados, como todas as outras formas da mata atlântica.
A produção de lenha comanda a destruição, legal ou ilegalmente, e, em seguida, agricultura, produção mineral, coleta vegetal e expansão urbana.
O fogo e a caça são presenças constantes e avassaladoras.


Já se destruiu demais dessas formações insubstituíveis, da qual dependem milhares de espécies animais e vegetais exclusivas, ou que tem aí contingentes populacionais importantes.


Pouquíssimas unidades de conservação na área da caatinga e do cerrado, de extensão reduzida, altamente desconectadas, parcas de recursos e de  servidores e repletas de espécies exóticas invasoras, não garantem  conservação perene nem mesmo das espécies abundantes e comuns, quanto mais do “tatu-bola” e de outras espécies raras, endêmicas e ameaçadas.


Que 2013 traga ótimas notícias e bons sucessos para a caatinga e para nós!

Celso

Celso do Lago Paiva


Instituto Pró-Endêmicas Curvelo MG.

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