sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Ribeirinhos festejam vazão maior de barragem

Miriam Hermes
  • Miriam Hermes l Ag. A TARDE l Abril de 2016
    Expectativa é que vazão do rio São Francisco seja mantida até o mês de outubro - Foto: Miriam Hermes l Ag. A TARDE l Abril de 2016
    Expectativa é que vazão do rio São Francisco seja mantida até o mês de outubro
Comunidades que dependem das águas do rio São Francisco e o Comitê da Bacia Hidrográfica do referido curso d'água (CBHSF) comemoraram a confirmação de que, a partir desta quinta-feira, 1º, ocorre o aumento da vazão mínima defluente da barragem de Três Marias, em Minas Gerais, dos atuais 388 m³/s para 430 m³/s.

"Com isto esperamos que o lago de Sobradinho tenha novo fôlego", diz o secretário do comitê, Maciel Oliveira, que participou de reunião técnica na Agência Nacional de Águas (ANA), em Brasília, onde houve o anúncio.

Boletins da ANA apontam que o lago de Sobradinho está com 15,44% da capacidade de reserva útil, com vazão média afluente (entrada) de 350 m³/s e vazão média defluente (saída) entre 820 m³/s e 840 m³/s.

Oliveira salienta que a situação "é crítica". O período é de seca e está entrando menos da metade da água no lago do que é liberado, com perspectivas de chegada, nos próximos meses, muito próximo do volume morto, como ocorreu no mesmo período em 2015, quando chegou a menos de 1%.

"Esperamos que a vazão aumentada siga até o fim de outubro", diz Oliveira, destacando que, a partir daí, deve começar a chover nas cabeceiras dos afluentes do São Francisco, recompondo o volume do lago.

De acordo com nota da ANA, a gestão da barragem de Três Marias é da Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig),  também parte do CBHSF, mas que ainda não há data para uma nova alteração da vazão.

Enquanto a maior liberação de água é aguardada pelos baianos, especialmente os que vivem nas margens do rio, usuários e pesquisadores se preocupam com a possibilidade de uma redução defluente de Sobradinho para 700 m³/s, embora a vazão esteja mantida em 800 m³/s até o fim deste mês, quando expira a autorização do Ibama. Esta foi a vazão mínima já autorizada em toda história.

Redução
Representantes do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e da Companhia de Energia Elétrica do São Francisco (Chesf) defendem uma nova redução de vazão em Sobradinho.
De acordo com o diretor de operações da Chesf, João Franklin, estudos do ONS apontam que a crise hídrica poderá se agravar, o que pode gerar situação mais crítica que em 2015. "Por isso a redução preventiva é necessária", argumenta.

A ANA informa, em nota, que só o Ibama pode autorizar essa redução. Em parecer técnico emitido pelo Ibama de Sergipe, com base em estudos das universidades federais de Alagoas (Ufal) e de Sergipe (UFS), são citados diversos fatores negativos de uma possível redução do volume nas barragens, não só Sobradinho (entre a Bahia e Pernambuco), mas também em Xingó (entre Alagoas e Sergipe).

O órgão detalha em laudos a perda da qualidade da água desde 2013, quando a redução da vazão defluente do Sobradinho chegou a 800 m³/s, ressaltando a  concentração de cianobactérias, tóxicas, e outros seres vivos, bem como a necessidade da água para múltiplos usos.

A decisão final do Ibama não foi divulgada.

Fonte:
Ruben SiqueiraComissão Pastoral da Terra / Bahia e Coordenação Executiva Nacional
Articulação Popular São Francisco Vivo



Sobre o assunto
Situação volumétrica dos reservatórios das hidrelétricas da CHESF – 01/09/2016
http://www.suassuna.net.br/2016/09/situacao-volumetrica-dosreservatorios.html


COMENTÁRIOS
João Suassuna – Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco

Essa é uma atitude clara, de quem está desesperado e a solução proposta, é de quem tem pouco compromisso com a Gestão das águas do Brasil. Ora, As autoridades do setor elétrico mineiro (Cemig) haviam adotado  política de gestão nas defluências de Três Marias, com o propósito de auxiliar na manutenção da vida das lagoas marginais do Rio São Francisco, beneficiar os ribeirinhos, bem como na tentativa de recuperação volumétrica da represa de Sobradinho. A política foi iniciada no mês de maio, defluindo, da represa, cerca de 230 m³/s, até ela atingir, no mês de outubro, uma defluência de 280 m³/s, de maneira a se alcançar um percentual de cerca de 10% da capacidade de Três Marias, até o final de novembro. No dia primeiro de julho a Cemig, em claro desrespeito a essa política, elevou a defluência de Três Marias para 320 m³/s. Com a seca avassaladora que persiste na bacia do Velho Chico, a situação se agravou, obrigando as autoridades a defluir da represa, cerca de 390 m³/s, o que resultará numa antecipação do alcance do referido percentual volumétrico da represa. E, agora, vem essa nova notícia de ampliação na defluência de Três Marias para 430 m³/s. Esse empirismo irá resultar, certamente, em cenário de volume morto, em Três Marias, bem antes do que se havia programado.
Em ciclos de secas, não se pode garantir absolutamente nada em termos de previsões meteorológicas, principalmente nas certezas de precipitações. A situação requer, sim, cuidados nessas questões, procurando sempre que possível evitar afirmativas do tipo a partir de outubro, deve começar a chover nas cabeceiras dos afluentes do São Francisco, recompondo o volume do lago”, para não se chegar a uma situação de difícil solução. Essa é o tipo de situação que fica pairando no ar a seguinte indagação: E se não chover?

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