quarta-feira, 5 de junho de 2013

“Anúncio não vai resolver o problema da seca”

Presidente da Federação da Agricultura de Pernambuco (Faepe), o produtor rural Pio Guerra integrará uma comitiva de pernambucanos que visitará cidades do México e dos Estados Unidos, que convivem com os efeitos de estiagem semelhante à vivenciada no Semiárido brasileiro. Ele revela que o grupo buscará informações em universidades e centro de pesquisas sobre experiências exitosas que possam ser replicadas no Estado. Nesta entrevista, concedida ontem à Rádio Folha FM 96,7, Guerra critica a ausência de políticas públicas eficazes no enfrentamento do problema e faz um alerta às dificuldades que os produtores estão encontrando para refazer as suas vidas, após as perdas acumuladas nos três últimos anos.



Nathália Bormann
DIRIGENTE cobra mais compromisso dos governantes e reação da sociedade

Combate à seca
Eu estou achando graça no íntimo porque o único anúncio que a gente espera é o de São Pedro. E, como São Pedro não vai estar em nenhum desses lugares, qualquer anúncio do ministro Fernando Bezerra Coelho (Integração Nacional), do governador Eduardo Campos, da presidente Dilma Rousseff não vai resolver o problema da seca. Nós tivemos quatro presidentes nordestinos nos últimos 50 anos: Castelo Branco, Sarney, Collor e Lula. Esse último foi retirante da seca. Eu acho que nada foi tratado de forma consequente, continuada, permanente para se ter o que a sociedade, dez ou 12 milhões de brasileiros que habitam esses 1.800 municípios, que hoje estão atingidos pela seca, pudessem ter perspectiva de vida diferente e que não ficassem à mercê de receber água barrenta. Essas bobagens que evitam que o sujeito morra de fome ou de sede, mas que destrói o meio ambiente, a perspectiva de vida, de história e a de futuro. Além de ser destruída a possibilidade de se crescer, de construir algo nessa região dessa dimensão.

Falta de ações criativas
Esta é a 73ª seca da história do Brasil. Desde 1500 e tanto que se tem seca. Então, não é novidade nenhuma. O que é lamentável é que hoje existem instrumentos tecnológicos que nos permitem uma antecipação dessa informação com certa segurança. Essas antecipações não são transmitidas aos que serão afetados, não nos são dadas. Você assiste a um programa de corrida e o cidadão informa: “daqui a duas horas vai chover, na curva um e dois, de um circuito na Alemanha”. Aqui no Estado tem três organismos que estudam o clima. Nos Estados Unidos tem um só. Então, está tudo errado, está tudo por fazer. Isso não é culpa do político, não é culpa dos técnicos. É culpa da sociedade brasileira, que não enfrenta esse assunto com indignação. Mas com resignação. Não se enfrenta com indignação a violência dos centros urbanos do Rio de Janeiro, de São Paulo? Por que a sociedade brasileira não entende que esse fenômeno que afeta de dez a 12 milhões de brasileiros, que precisam ter direito a crescer, a viver, a ter esperança de vida, não ser enfrenta com a tecnologia disponível, com os recursos disponíveis?

Inversão de prioridade

Um País que vai fazer Copa do Mundo de 40 e tantos bilhões de reais, que tem a sexta economia do mundo, que quer entrar no Conselho de Segurança da ONU, não pode ter uma região de miseráveis desse jeito e achar que isso é normal. É isso que eu não aceito. Não é culpa do partido A, B, C ou D. Não é politizar essa discussão. Hoje, o País tem dinheiro, tecnologia, possibilidade de se comunicar. Então, hoje pode fazer um tratamento sério nessa linha e isso, o que me revolta, é não ver ninguém falar nessa linha. Cada um está querendo tirar proveito disso. O ministro tira de um lado, o governador tira do outro, a presidente tira do outro, um bate no outro e o sujeito está lá vivendo em condições miseráveis.

Barragens submersas
O sistema de barragens submersas já existe em vários lugares de Pernambuco, do Nordeste. Cada situação é uma situação, cada propriedade é uma propriedade. Esse é um instrumento técnico de produtividade, de produção, que pode ser usado dentre tantos. Mas o que precisa mesmo é um planejamento a médio e a longo prazo. Crédito para essas coisas todas, orientação para tudo isso, proteção da comercialização, políticas permanentes, independentes dos governos que mudem. Atenção especial a isso de forma constante, transparência nas informações de clima e tempo para que a gente saiba com antecedência. Unidade de ação para não haver sobreposição de trabalho.

Eleitor urbano
Quem define política pública é o eleitor. O eleitor hoje é urbano, não é rural mais. A economia é urbana, não é mais rural. Pernambuco perdeu 70% da sua produção de leite. Você está sentido falta de leite no supermercado? Não! Vem de vários lugares. Feijão não teve quase nada. Você está sentindo falta? Tem tudo em supermercado, vem de fora. Quem está liquidado é quem está vivendo naquele negócio, que vive daquilo. Quem plantou, perdeu, que teve sua pastagem destruída, seu rebanho dizimado. Então, esse pessoal vai ter que reconstruir a vida, e isso não é do dia para a noite. Isso leva anos e anos. Até que chegue outra seca e as ações não aconteçam e volte a empobrecer novamente. É melhor sair daqui, fazer feito fez Lula, que virou presidente da República. Era retirante que virou metalúrgico e depois presidente da República.

México e EUA

Essa é uma organização que está sendo feita pelo Sebrae de Pernambuco. Somos nós, conselheiros que fazem parte do conselho do Sebrae, da federação das indústrias, da federação do comércio, da sociedade auxiliadora da agricultura, do Senai de Pernambuco e da Universidade de Pernambuco. E nesse grupo você conta com quatro ex-secretários. Então, a gente vai exclusivamente visitar universidades, entidades empresariais, centros de pesquisa para ver como esses países tratam o problema da seca. Para ter novas sugestões de políticas públicas, ver quais são as tecnologias que estão mais em uso nesses lugares, que universidades têm mais informações técnico-científicas que mereçam ser aprofundadas por quem quer que seja. Para a gente tentar pensar algumas coisas diferentes. Se existem, como é que acontecem, quais são os instrumentos que são aplicados nos países desenvolvidos que vivenciam o mesmo problema. Certamente, não é com carro-pipa, nem Bolsa Família.

Fórum permanente
A hora não é de criticar ninguém. Todo mundo tem culpa nesse processo. Todo mundo está acomodado nesse processo. Mas aquele que é a maior vítima desse processo tem que ser mais ágil de quem não é. A gente tem que, ao se abordar a questão seca, ver se é possível apresentar algumas sugestões objetivas. Se isso está ruim, o que é que vai fazer... Nós vamos fazer essas visitas. Nós, em seguida, vamos constituir um fórum permanente com o empresariado para discutir de que forma iremos enfrentar o problema.

Falta de sensibilidade
Não há uma sensibilização nacional para transformar esse assunto num assunto permanente, que desmoraliza o Governo. Não se admite um país grande, um país que tem essa dimensão, que vai tirar petróleo a 30 quilômetros do litoral, a sete quilômetros pra dentro do mar, e não é capaz de conviver com um processo desse, que é sabido que vai se repetir e que afeta milhões de pessoas. Não há uma política pública definida, uma mobilização nacional para que isso seja tratado socialmente, pedagogicamente, com justiça. O que não pode é uma imensidão de pessoas que vivem nessa região virar ou se tornar esmoléus de aposentadoria ou de Bolsa Família ou não terem o direito de crescer, de prosperar, de sonhar com o futuro.

Transposição
Não existe um remédio só para esse problema. A transposição do rio São Francisco é um elemento a mais. Mas estudos antigos dizem que, se usar todas as disponibilidades hídricas do Nordeste, vai conseguir irrigar 5% do território nordestino. Então, vai resolver? E o resto vai fazer o quê? Há de se sentar e ver as barragens submersas. Existem óleos orgânicos que se põem em cima das superfícies dos açudes para evitar a evaporação e manter aquele volume da água por muito tempo. Existe essa tecnologia do milho mais resistente à seca. Vamos ver o que é que existe. Vamos estudar isso. Vamos ver todas as oportunidades sem nenhum preconceito. Tem que proteger esse povo que se destinou a viver nesta região, ou então orientá-los a sair de lá.

Recuperação da bacia leiteira
É difícil dizer como é que se recupera. A bacia leiteira se constitui aos poucos. O rebanho também aos poucos. Você vai escolhendo o melhor, vendendo o pior, vai adaptando as raças que são leiteiras que, de modo geral, são de sangue europeu, não se adaptando muitas vezes ao clima do semiárido. Tem que levar um tempo para o animal se adaptar. Você vai fazendo uma seleção e aquilo vai crescendo. Mas você não consegue. Você perdeu seu rebanho todo e não tem dinheiro para comprar tudo de novo.

Recuperar o gado
Não há uma seleção para gado de abate. Você pode comprar bezerros e recria-los por aqui. É tudo refazer do zero. Depende das condições. Vai chover, não vai chover? Eu vou fazer aguada ou não vou fazer aguada? Eu vou ter financiamento com juros ou sem juros? Ou vou pagar com dois anos ou dez anos? Eu vou resolver meus passivos nos bancos ou não vou? Eu não devo nada, mas e quem deve? Você vai aceitar a proposta de todo mundo ou não? Você vai continuar emprestando só o pronafiano? E os outros?

Medidas emergenciais 
Eu acho que é o momento de fazer as medidas emergenciais funcionarem. Não estão funcionando a contento. A distribuição de milho é parca, é difícil. Os preços praticados aqui são mais caros que os preços praticados em Santa Catarina. Políticas públicas não estão sendo bem feitas. O crédito está com desvios . A questão de caixa d’água, carros pipa, daqui a dois, três meses só tem agua no são Francisco. Você não tem como coletar carro-pipa. Vai furar poço? Na minha fazenda, eu furei por contra própria seis poços e só um tem agua. E é salgada. Só quem bebe aquela água é o gado. E gado não vai beber só água, tem que ter pasto, tem que ter ração, o que restar daqui para lá. A coisa não é simples. A solução é um tratamento de médio e longo prazo. De curto prazo, são esses que vêm sendo praticados com mais eficiência, agilidade, democratização, transparência.

Sem informação
Você abre o site do ministério do Governo Federal e não tem dados de 2012, de novembro, de setembro. Hoje, eu estava procurando para ver se trazia dados, mas não tem. Tem site mas não tem informação de nada. Precisou o governador daqui mandar fazer um estudo com uma universidade de São Paulo para dizer que morreram tantos animais. Imagine se o sujeito que viu morrer duas, três vacas vai procurar agência para dizer “olhe, morreram duas vacas minhas”. O cara está “P” da vida e não quer saber de comunicar. Então, as que morreram e ninguém comunicou ninguém sabe. Não tem censo para isso.
 
COMENTÁRIOS
João Suassuna - Pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, Recife


Sou contra essa iniciativa de se visitar países de clima seco para se trazer, para o Nordeste semiárido brasileiro, as experiências exitosas existentes naqueles países. Esses decalques não costumam dar certo. Os mundos são completamente diferentes. As latitudes dos EUA são muito elevadas. Lá cai neve. Creio que as experiências existentes no Nordeste, com plantas xerófilas e com animais adaptados ao clima seco, já seriam suficientes para o estabelecimento de uma política de convivência com o fenômeno das secas. Fico com o pé atrás, diante de propostas como essas, de se viajar para o exterior em busca de informações tecnológicas visando o estabelecimento de sistemas de produção em ambientes semiáridos, existindo, aqui, uma experiência muito rica com elas. O que precisamos, sim, e com urgência, é acabar com a farra do gasto do dinheiro público nessas visitas, que não têm o menor sentido, e estabelecer políticas adequando as plantas xerófilas e os animais adaptados, à realidade do clima seco regional.
 
José do Patrocínio Tomaz Albuquerque - Consultor e Professor aposentado da Universidade Federal de Campina Grande.


Prezado João Suassuna
 
Também, em princípio, sou contra. Isto é o que se chama de dependência ou submissão cultural. O que esse pessoal precisa, antes de viajar ao exterior, é ler as inúmeras propostas de convivência com o nosso Semiárido. Que não é uniforme. Esse pessoal pensa em soluções abrangentes. Estas, não existem. Há muitos tipos de semiáridos, inseridos no Semiárido brasileiro. Diferenças hidroclimáticas, fisiográficas, socioeconômicas, culturais, etc. Mesmo se sabendo que nesta região a sua constituição geológica, por exemplo, é predominantemente de rochas Cristalinas, elas não são as únicas a ocorrerem na região. E há Cristalinos e Cristalinos. Tudo isto está exposto em inúmeros trabalhos apresentados por vários autores em Anais de Congressos, revistas, publicações diversas, etc. o que esse pessoal deveria fazer é, antes de tudo, conhecer a fundo estas propostas. E ver se elas constam de políticas públicas para o aproveitamento apropriado do solo, da água, da vegetação nativa, etc. E deveriam já ter feito isso, antes, pois como eles próprios afirmaram, a seca é um fenômeno cíclico, sempre vai e volta. Mas, antes tarde do que nunca.  Uma comissão de notáveis em Pernambuco e em outros estados poderia sintetizar todas as propostas e levá-las aos governos, exigindo, com argumentos, como os mostrados na entrevista, a implantação destas propostas. O abastecimento hídrico e alimentar, humano e do gado, é possível. Esta mortandade exagerada é evitável. Somente se precisa aproveitar as potencialidades do Semiárido em termos de recursos naturais, aí incluindo o trinômio água-solo-vegetação, respeitando-se as características culturais de seu povo, mas procurando mudar a sua mentalidade tradicional, o que não se faz da noite para o dia.
Abraços,
Patrocínio
 
 
 
por João SuassunaÚltima modificação 05/06/2013 07:35

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