quarta-feira, 29 de setembro de 2010

MISTÉRIOS DA SERRA DA CAPIVARA.

3/8/2010 16:24:00

Nas Cuestas arenito – conglomeráticas da Gurguéia, curiosas figuras pintadas com óxido de ferro e caulinita chamaram a atenção dos primeiros forasteiros da região que reconheceram nas pinturas o semblante de um animal que não faz parte da fauna local e que por isso era motivo de mistério para quem se perguntava por que aquela figura estava lá?
A figura misteriosa era uma capivara, animal que vive em beira de lagos e locais úmidos, uma paisagem muito diferente do sertão seco piauiense. Tal ineditismo emprestou o nome ao local: Serra da Capivara.

A Serra da Capivara fica no sudoeste do estado do Piauí, próximo ao estado da Bahia, e hoje compreende os municípios de São Raimundo Nonato, Coronel José Dias e Canto do Buriti. Esta Serra, que na verdade é uma Cuesta, sempre chamou a atenção dos forasteiros por ser uma paisagem de exceção em meio ao semi-árido Nordestino.

O Domínio Geomorfoclimático das Caatingas é segundo Aziz Ab´Sáber um ambiente seco, com médias anuais de pluviosidade de apenas 200 mm de chuvas mal distribuídas ao longo do ano, temperaturas elevados, com médias de 25º a 29º graus numa área que cobre 720 mil quilômetros quadrados, 10% do território brasileiro.

As causas da escassez de precipitação no nordeste brasileiro não são inteiramente explicadas. O geógrafo Jurandir Ross atribui a seca do nordeste à uma grande célula de alta pressão sobre a região que dificulta a penetração da massa de ar equatorial continental, da tropical marítima e da frente polar atlântica que seriam mecanismos geradores de instabilidades, porém acabam dissipados pela divergência anticiclônica estacionada sobre a região. O oceano também pode influenciar na determinação do clima, uma vez que as águas do Atlântico Equatorial são mais frias que as do sul do Equador por que são alimentadas pela corrente de Benguela. O giro anticiclônica da massa oceânica do atlântico sul transporta essas águas para latitudes mais baixas, provocando redução de chuvas nas áreas que influenciam.

O ambiente natural deste grande espaço ao longo de milhares de anos forçou da vegetação uma evolução à exposição severa do calor, seca, e alta luminosidade, além dos solos é claro. A caatinga se caracteriza por conter espécies espinhentas, adaptadas para perder pouca água pela evapo-transpiração, há a presença de centenas de espécies de plantas carnosas como cactáceas e bromeliáceas, que retém o máximo de água possível para resistir longas estiagens, muitas espécies arbóreas são caducifólias, as folhas caem na seca para não perder muita água. A maioria das árvores não desenvolve um grande porte.

Os rios são na maioria intermitentes, tendo curso d´águas somente na época das chuvas.

Em linhas gerais, a fitogeografia da Serra da Capivara se enquadra dentro do bioma caatinga. No entanto, o relevo local influencia na umidade e o quadro fitogeográfico da Serra da Capivara é bastante complexo devido a influência da geomorfologia.

A geomorfologia e a fitogeografia da Serra da Capivara.

A Serra da Capivara encontra-se no contato litológico entre o escudo cristalino pré-cambriano da depressão do médio São Francisco e a bacia sedimentar Piauí – Maranhão.

A porção litológica sedimentar da região é a que possui as cotas altimétricas mais elevadas, resultante de ações tectônicas no Mesozóico e que veio a formar um relevo cuestiforme, com um front voltado à depressão cristalina e um reverso suavemente inclinado. As ações intempéricas do clima moldaram o relevo esculpindo canyons no planalto (reverso da Cuesta) e morros testemunhos..

A porção cristalina do Parque Nacional Serra da Capivara, situada em frente ao planalto, é a parte de menor altitude da região. As águas que escoam da Cuesta formam riachos, intermitentes na maior parte do ano, que deságuam no rio Piauí, a drenagem mais importante da região e que corta a cidade de São Raimundo Nonato. Esta unidade de relevo é chamada de depressão do médio São Francisco, uma pediplanície onde se elevam Inselbergs de Gnaisse e serrotes de calcário com grutas.

As Cuestas agem como uma barreira orográfica. Em seu sopé, a caatinga dá espaço à manchas de floresta estacional semidecidual, com um porte arbóreo elevado, assim como no interior dos canyons, onde a umidade é preservada, na região do planalto, nos locais onde o aflora o lençol freático predominam as chamadas veredas com concentração de Buritizais.

A presença de manchas da vegetação dos biomas mata – atlântica e cerrado são justificadas pela topografia preservar a umidade e as condições pedológicas que favorecem o desenvolvimento destas vegetações. No entanto, a Serra da Capivara se encontra isolada geograficamente das áreas onde se desenvolvem as áreas core destes ecossistemas.

A explicação para o aparecimento destas vegetações na Serra da Capivara se remete à uma idade anterior ao Pleistoceno, quando o quadro vegetacional da América do Sul era bem diferente da atual.

A teoria dos refúgios e o complexo quadro vegetacional da Serra da Capivara

A complexidade dos ecossistemas tropicais sul-americanos tem sido explicada pela Denominada “teoria dos refúgios”, que vem se consolidando, segundo Ab´Saber como o mais importante corpo de idéias referentes aos mecanismos e padrões de distribuição de floras e faunas da América Tropical, tanto pelo que ela envolve de significância biogeográfica e ecológica, quanto pela sua própria experiência de multidisciplinaridade, na interface das geociências e biociências.

A idéia síntese que embasa a teoria dos refúgios é, segundo Adler Viadana:

[...] a que flutuações climáticas da passagem para uma fase mais seca e fria durante o pleistoceno terminal, a biota de florestas tropicais ficou retraída às exíguas áreas de permanência da umidade, a constituir os refúgios e sofrer, portanto, diferenciação resultante deste isolamento. A expansão destas manchas florestadas tropicais, em conseqüência da retomada da umidade do tipo climático que se impôs ao final do período seco e mais frio, deixou setores de maior diversidade e endemismos como evidência dos refúgios que atuaram no Pleistoceno terminal.

A razão da existência de um clima mais seco e frio no passado está relacionada à glaciação Würm-Wisconsin. Com esta glaciação, houve uma drástica redução da temperatura média do planeta, como conseqüência, os pólos reteram muito mais água sob a forma de gelo e o nível médio dos mares recuou deixando exposta grandes faixas de terras antes ocupadas pelo mar.

A corrente fria das Malvinas ganhou mais intensidade e chegava até o atual litoral Sul baiano. Toda a faixa litorânea do Brasil Sul e Sudeste passou a ter influência desta corrente fria que de maneira semelhante como ocorre hoje nos litorais do pacifico da América do Sul, essas faixas de terra, dentre as quais a atual plataforma marinha que então aflorava, eram espaços secos que criaram condições para que as caatingas do nordeste se propagassem.

Com esta sensível mudança climática os quadros vegetacionais da América do Sul sofreram uma reconfiguração. Assim, segundo Ab´Saber (1977), as florestas úmidas do litoral atlântico ficaram refugiadas, permanecendo em escarpas mais úmidas de maneira descontinua na Serra do Mar. As temperaturas mais baixas proporcionaram uma expansão das florestas de Araucária para Áreas interiores dos Estados de Sul e Sudeste, além das vegetações de prados de altitude. Os Cerrados resistiram ao avanço das caatingas, que se propagaram pelas novas faixas de terras afloradas no litoral, avançando sobre depressões e os locais mais áridos do sul e sudeste. A Amazônia, por sua vez sofreu uma retração e boa parte de seus atuais espaços foram invadidos por Cerrados.

Com a retomada do clima mais quente, os processos se inverteram, a umidade passou a favorecer a sobrevivência da vegetação então refugiada que volta a ocupar os espaços então ocupados pelos climas mais secos. A retração e avanço dos grandes ecossistemas sul-americanos são responsáveis em grande parte pela riqueza biológica de nossos meios naturais, pois mesmo com a retomada da umidade, muito da vegetação anterior sobreviveu nos locais onde se preservaram um ambiente favorável à seu desenvolvimento.

Realizando estudos paleopalinológicos encontrados nos coprólitos (cocô fossilizado) de homens e animais da Serra da Capivara, Chaves (2002) confirma a existência de um clima mais úmido que o atual para a região:

[...] entre 845 e 7230 anos atrás, constatou-se a atenuação da última crise árida holocênica. Nesta época a paisagem da região de São Raimundo Nonato era muito diferente da que conhecemos hoje em dia. Os diagramas polínicos mostram uma forte percentagem da taxa de arbóreos, assim como de associações típicas que confirmam a existência de uma vegetação do tipo Cerrado - Cerradão.

Outras provas morfológicas provam a presença de um clima mais úmido na região. Em escavações realizadas por Gisele Felice reporta que em camadas de formação superficial inferiores foram encontrados seixos e areias grossas em trincheiras localizadas na baixa vertente, o que significa uma maior energia pluvial capaz de transportar materiais mais pesados, o que atesta um período de maior precipitação enquanto que nas camadas superficiais encontram-se areias grossas, médias finas e argilas, correlativa à depósitos realizados sob o clima atual. Aproxima-se que na época da predominância dos Cerrados na Serra da Capivara a média pluviométrica anual era de cerca de 1500mm de chuvas.

As chuvas e a grande presença de água no passado foi responsável pelo esculturação de sulcos nas paredes da Cuesta onde antes corriam páleo cachoeiras, assim como marmitas (sulcos provocados pela queda d´água) na base dos paredões.

A abundância de recursos e a vegetação serviram de aporte ao desenvolvimento de comunidades humanas pré-históricas que habitaram densamente a região e que reabriram os debates sobre a origem do povoamento humano nas Américas.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

CARUARU GANHA HORTO NO DIA DA ÁRVORE.

DO DIÁRIO DE PERNAMBUCO.

Agreste // Área de 30 hectares na BR-232 vai servir de abrigo para espécies do Semiárido que estão ameaçadas de extinção
Adaíra Sene
adairasene.pe@dabr.com.br

Encontrar a cura para diversas doenças, garantir o desenvolvimento sustentável e preservar o meio ambiente são ações que podem estar ao alcance de suas mãos. É com esta filosofia que a indústria farmacêutica Hebron inaugurou, ontem pela manhã, o Horto Florestal de Caruaru. A data não poderia ser mais propícia, 21 de setembro, Dia da Árvore.

Plantio de 70 espécies selecionadas pelo Instituto Agronômico de Pernambuco começou ontem e meta do Laboratório Hebron é concluir todo o trabalho em dois anos. Fotos: Edvaldo Rodrigues/DP/D.A Press
Com o plantio de 70 espécies típicas da caatinga, em uma área de 30 hectares, o laboratório tem um objetivo: não deixar que a vegetação genuína do Semiárido entre em extinção. Segundo dados do Centro de Referência para Recuperação de Áreas Degradadas (Crad), da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), nos últimos cinco anos, cerca de 40% da cobertura vegetal do bioma desapareceram. O Horto Florestal de Caruaru, implantado no quilômetro 136 da BR-232, no Agreste do estado, vai servir de abrigo para espécies ameaçadas de extinção. Mais do que preservar, o local também servirá para a realização de pesquisas de material genético visando o combate à desertificação. "Somos pioneiros na produção de medicamentos fitoterápicos. Temos um bioma único no mundo em vias de sumir. Vamos preservar e também pesquisar essas espécies", salientou o diretor presidente do Hebron, Josimar Henrique da Silva.

A iniciativa foi uma parceria entre o Instituto Agronômico de Pernambuco (Ipa) e a Univasf. As 70 espécies foram selecionadas pelo Ipa obedecendo critérios de importância no combate à degradação do solo e do uso medicinal. "O Ipa tem o maior herbário da América Latina. Fizemos a pesquisa das espécies em 30 dias. Todas serão alvos de preservação e estudo. Estamos inaugurando mais do que um horto, um centro de referência", afirmou o gerente de planejamento do Ipa Hildeberto Rodrigues da Silva. Universitários e pesquisadores de todo o mundo poderão utilizar o cinturão verde para estudos do código genético de espécies como a baraúna, o umbuzeiro, a catingueira e a aroeira. "Vamos utilizar o material genético para desenvolver pesquisas clínicas epré-clínicas. Já trabalhamos na produção de medicamentos e queremos continuar com o trabalho, aproveitando a diversidade oferecida na região", comentou Josimar Henrique. A Univasf foi a responsável pelo desenvolvimento das mudas que serão plantadas.

No Ano Internacional da Biodiversidade, a preservação é objetivo maior dos pesquisadores. "As estatísticas relacionadas à caatinga são alarmantes. Estamos desenvolvendo tecnologia para a produção das sementes. Vamos transformar uma área completamente degradada em área verde. Este é o desafio de todo cidadão e estamos de esperanças renovadas", disse o professor doutor José Alves de Siqueira, diretor do Crad. O vice-coordenador do Comitê Estadual da Reserva da Biosfera da Caatinga, Guaraci Cardoso, acredita que iniciativas como esta são essenciais para a manutenção da vida, o desenvolvimento sustentável e o combate ao aquecimento global. "O comitê já é focado na preservação. Estamos encontrando um parceiro multiplicador para a sobrevivência do semi-árido", comentou.

Zoológico - Estudos também estão sendo realizados para a criação de um zoológico da caatinga no Horto. O prefeito de Caruaru, José Queiroz, esteve na cerimônia de inauguração e avalia a possibilidade de se agregar um açude à área para a manutenção também de espécies animais. "Esta é uma iniciativa que entrará para a história do município. Cada um faz a sua parte". Até o fim desta semana serão plantadas 3.600 plantas de 25 espécies distintas em uma área de dois hectares. As demais mudas serão plantadas ao longo de dois anos.

UM NOVO OLHAR SOBRE A CAATINGA.

Do Jornal do Povo.
25.09.2010 17:00

VIVIANE GONÇALVES
vivi@opovo.com.br
Enviada a Campina Grande
Um novo olhar precisa ser lançado sobre o semiárido e, em especial, a caatinga. A imagem de uma área sem perspectivas produtivas e sociais pode ser substituída por uma cheia de possibilidades e riquezas naturais. A partir da criação de uma agência de notícias, o Instituto Nacional do Semiárido (Insa) pretende evidenciar as potencialidades da região, contemplando a diversidade de conhecimento adquirido através da vivência. A Agência de Notícias do Semiárido Brasileiro (SAB) foi oficializada pelo Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) para reunir todas as informações sobre a região. A plataforma virtual, no endereço www.insa.gov.br/sabnoticias, vai possibilitar que o tema seja compartilhado para diferentes grupos de interesse.

Atualmente, são 982 mil quilômetros de extensão e mais de 21 milhões de pessoas vivendo no semiárido brasileiro. E pouco se sabe sobre a sua dinâmica. A criação de uma sede e de uma estação experimental para o Instituto também faz parte do projeto de difusão de conhecimento sobre o semiárido. São 760 hectares disponíveis para os projetos do Insa, em Campina Grande, na Paraíba. Desse total, 2.400 metros quadrados de área para a construção de seis prédios, que vão abrigar a parte administrativa do instituto. As obras de construção e compra de equipamentos estão orçadas em quase R$ 10 milhões e devem ser concluídas até o fim do ano.

De acordo com o diretor do Insa, Roberto Germano Costa, este deve ser um referencial para os estudos sobre o tema. “É um marco na nossa história porque está sendo criado um braço do MCT dentro de uma região semiárida”, afirma. Baseado no paradigma das potencialidades, serão criados também o Observatório, o Fórum e a Conferência do Semiárido Brasileiro. “A partir desses novos instrumentos vamos desenvolver novas estratégias para um problema que não é só de uma região, mas que atende ao desenvolvimento social do País como um todo”, diz.

Bioma
Para o pesquisador José de Souza Silva, não se pode superar situações complexas com os mesmos modos de interpretação e intervenção que as geraram. Ele explica que a forma de ver o bioma condiciona a forma de intervir nele para transformá-lo. “Esta não deve ser considerada uma região problema. Outra visão e outro pensamento sobre o semiárido devem ser negociados e construídos de forma interativa”, ressalta.

O diretor do Insa completa que a criação da agência Sab, da sede e da estação experimental do Insa devem ser considerados como pontos de radiação sobre o semiárido. “Não vamos fazer o que já está sendo realizado, nossa intenção não é sobrepor nenhum projeto que já exista. A intenção é criar parceiros, potencializar pesquisas e reforçar novos conhecimentos para a região”, resume Germano.

EMAIS

Desde a criação do Insa, em 2007, são desenvolvidos projetos que buscam difundir novas tecnologias para a região semiárida. Ao todo, são 22 projetos sobre a produção animal e vegetal. No viveiro, são criadas 70 mil mudas de espécies nativas ou adaptadas por ano.

"A intenção é dar suporte na época de seca. Desde a criação, já disponibilizamos 207 mil mudas”, explica o agrônomo Walter Vasconcelos.

Entre as inovações tecnológicas, o Insa tem construído duas máquinas que prometem difundir a utilização de espécies vegetais, como a palma forrageira e o mandacaru. O equipamento retira os espinhos e tritura em blocos para o consumo animal. Segundo os pesquisadores, a utilização da palma forrageira reduz em até 50% a necessidade de consumo de água pelo animal.

SERÃO EM CHAMAS.


DO DIÁRIO DO NORDESTE
26/9/2010
Quem anda pelas estradas federais e estaduais, percebe como o ser humano está distante de se conscientizar da importância que tem o equilíbrio ambiental para o existir da vida. A quase totalidade dos focos de incêndios que se verifica nas entranhas da caatinga nordestina tem origem criminosa. Os criminosos sorriem quando as chamas e a fumaça se espalham consumindo grande parte desse bioma que está se transformando num árido deserto, tornando-se um meio sem vida vegetal e animal, situação que impede a Natureza de realizar o ciclo formador da cadeia alimentar. Por que as autoridades competentes, desde o nível municipal até o federal, não contam com um planejamento consistente para acabar com esse atentado à vida, principalmente a dos seres irracionais que não têm planejamento de defesa? Um fato que chama atenção é que muitos proprietários de terra que tem seus imóveis cortados por BRs e estradas estaduais, colocam fogo nas margens dessas vias para não verem seus imóveis ardendo em chamas. Por que existe essa prática? Porque os administradores não cumprindo a legislação.

CAATINGA PEDE SOCORRO.

dO BLOG CIÊNCIA / TECNOLOGIA
segunda-feira, 27 de setembro de 2010 7:55
Caatinga pede socorro
Isabela Fraga
Ciência Hoje/RJ
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Hoje reconhecidamente um dos biomas mais ricos do Brasil, a caatinga do semiárido nordestino é também o menos protegido: só 2% de sua área se encontram em unidades de preservação.
Das 5.344 espécies de plantas registradas na região, cerca de 320 são endêmicas - ou seja, restritas somente àquele bioma.
O lembrete foi feito na 62ª reunião anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), realizada em julho último em Natal, no Rio Grande do Norte.
Os biólogos Maria Regina Vasconcellos, da Universidade Federal da Paraíba; Ana Maria Harley, da Universidade Federal do Espírito Santo; e Miguel Rodrigues, da Universidade de São Paulo, apresentaram dados de pesquisas para explicar a biodiversidade - especialmente botânica - das caatingas brasileiras e mostrar por que elas devem ser preservadas.
Pelo fato de a caatinga ter condições climáticas muito particulares - como chuvas irregulares -, as espécies botânicas adaptadas ao semiárido também são muito características. Suas árvores são em grande parte caducifólias, ou seja, suas folhas caem durante o período seco para evitar a perda de água.
A família mais presente na caatinga é a de plantas leguminosas. "São 320 espécies divididas em 86 gêneros", aponta Harley.
Considerada até o final dos anos 1980 um bioma de pouca biodiversidade, a caatinga tem hoje 45% de sua área alterados pelo homem, segundo Vasconcellos. "Esse reconhecimento tardio de sua riqueza natural, aliado a um índice ainda baixo de preservação, gera perda de diversidade biológica e também fenômenos como a desertificação", alerta a bióloga.
Desmatamento - Atividades que mais impactam o bioma da caatinga são o desmatamento (para lenha), queimadas e a criação de caprinos, que colaboram para o desaparecimento de espécies herbáceas, elemento de maior diversidade biológica da região. Grande parte dessas plantas aparece apenas durante os dois ou três meses de chuva, o que revela sua fragilidade naquele bioma.
Para conter essa rápida devastação, Vasconcellos sugere um trabalho nas escolas focado na valorização da caatinga. " Também temos tentado fazer valer a proteção ambiental nas RPPN (Reservas Particulares do Patrimônio Natural), uma vez que a maior parte da área da caatinga está localizada em fazendas e sítios", comenta.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

DEGRADAÇÃO AMEÇA ÁREA DE PRESERVAÇÃO DOS INHAMUNS.


27/9/2010
Espécies vegetais e a fauna local estão correndo o risco de desaparecerem por conta da ação do homem

Quiterianópolis. Um patrimônio ambiental, localizado a 12 km da sede deste Município, na localidade de Cacimbas, está ameaçado desaparecer, caso não cessem os avanços dos desmatamentos frequentes naquela área de preservação. Lá, estão situadas as Cachoeiras do Penha, lugar em que a natureza promove um espetáculo de rara beleza. É uma região com vegetação típica do bioma caatinga.

Do riacho Coimbra, afluente do rio Poty desembocam quatro grandes quedas de água, que se destacam entre os paredões, emoldurados por uma biodiversidade única na região. Espécies vegetais como macambiras, crotes, umburana de cheiro, aroeira, barriguda, tamboril e angicos, entre outras permeiam o local, misturando-se à paisagem e à rica fauna.

"Toda a beleza pulsante do bioma caatinga pode ser aqui encontrada", diz o ambientalista Valdo Vale, diretor do Polo Audiovisual Santa Rita, localizado no município. O Polo realiza projetos financiados pelo programa Mata Branca, fazendo um trabalho de conscientização ambiental dos proprietários das terras. Um deles é o "Anjos da Caatinga", no qual oito monitores ambientais fazem um trabalho voluntário de defesa e preservação da área. Eles fazem um trabalho de coleta de dados e participam de campanhas de sensibilização. Produzem conteúdos audiovisuais para a comunidade de Cacimbas e localidades vizinhas, mostrando a importância do patrimônio natural para as futuras gerações.

Quem visita a área, que é considerada APP (Área de Preservação Permanente) fica encantado com a diversidade e a beleza da "mata branca". Durante os meses de fevereiro a julho, devido ao inverno, o Penha se revela com suas majestosas cachoeiras, entre elas: Salto Maior, do Convento e Poço do Boi, com uma vazão muito grande, encantando quem passa por lá. Em apenas uma trilha pela área podem ser encontrados mais de oito tipos de árvores em extinção do bioma, como arapiraca, pau d´arco roxo, pau d´arco branco, imburana de cheiro, imburana de espinho, imburana preta, ingá e juazeiro.

Todo esse patrimônio natural, porém, pode desaparecer em pouco tempo, caso os desmatamentos não sejam freados na região, cuja área é composta por 300 hectares. Nos últimos três meses, os monitores ambientais que realizam um trabalho de levantamento de dados sobre a fauna e flora das Cachoeiras do Penha têm se deparado com sucessivos exemplos de desrespeito ao ecossistema da região, que a passos largos se transforma em uma paisagem angustiante. "A degradação dói nos olhos de ambientalistas que conhecem as belezas e riquezas deste monumento natural dos Inhamuns", diz Valdo Vale.

A natureza já manifesta sinais visíveis de degradação. Dois olhos d´água que também compõem a beleza do lugar já estão com as suas nascentes comprometidas, tendo já perdido 40% da sua vazão, comprovado pelos monitores ambientais do Polo, que atuam no local diariamente. A menos de cinquenta metros dessas nascentes já foram feitos desmatamentos.

Prejuízos são visíveis

A fauna e a flora também foram atingidas. "Várias espécies de plantas, árvores e pássaros vêm sofrendo com o desmatamento feito próximo aos locais de reprodução, trazendo prejuízos constantes e aos poucos o desaparecimento destas espécies", denuncia o diretor do Polo Santa Rita. João de barro, maracanã, pica-pau rei e periquitos são exemplos de pássaros do bioma caatinga existentes na região, que estão convivendo com o crime ambiental e correm sério risco de extinção. A vegetação também já denota grandes prejuízos e degradação. De acordo com Valdo, nos últimos três anos, a região já perdeu mais de 70% de toda a sua rica cobertura vegetal.

O desmatamento desordenado na região provoca a preocupação, revolta e protestos de ambientalistas na região dos Inhamuns. "Solicitamos uma providência urgente dos órgãos de fiscalização e uma posição definitiva do governo com relação ao futuro da região, que se encontra em grau de degradação muito grande", aponta Valdo Vale.

Monitores preocupados

Os monitores do Polo também reclamam da realidade da região. "O Penha é sem dúvida um dos lugares mais lindos que tive a oportunidade de conhecer, um exemplo de que a caatinga tem a sua beleza particular, a prova está aqui nesta região, quando olhamos as nascentes de água no meio desta paisagem cinza e a beleza das macambiras e crotes, que merecem uma atenção maior por parte das autoridades", declara Rodrigo Ferreira.

O monitor Diego Silva também protesta. "A gente fica triste de ver o quanto a gente se empenha, luta por esta causa e constata este nível de destruição. Será que daqui a dois anos estaremos aqui a lamentar a perda de um dos mais belos monumentos naturais da região dos Inhamuns?", questiona.

Cláudia Araújo, presidente do Conselho Municipal do Meio Ambiente (Condema) de Quiterianópolis, diz que a partir dos protestos dos ambientalistas, e também preocupados com a situação na APP, o Conselho reuniu os proprietários e está articulando uma reunião técnica com os órgãos de preservação ambiental, Semace e Conpam.

SEGUNDO MINISTÉRIO

Só 1% do bioma caatinga está em área de proteção ambiental

Preservação e recuperação das áreas passam por trabalho voluntário do produtor rural, através de metodologia adequada

Quiterianópolis. Áreas de Preservação Permanente (APP) são regiões nas quais, pela Lei, a vegetação deve ser mantida intacta, tendo em vista garantir a preservação dos recursos hídricos, da estabilidade geológica, da biodiversidade, do fluxo gênico de fauna e flora, bem como do bem-estar da população humana.

Com respeito ao bioma caatinga, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente (MMA) cerca de 7% se encontram em unidades de conservação, menos de 1% em unidades de proteção, que são as mais restritivas à intervenção humana.

Estas unidades, no entanto, têm sérios problemas de implementação, pois têm de lidar com diversos problemas relacionados à proteção da sua biodiversidade, como caça, focos de incêndio, desmatamento e tráfico de animais silvestres.

A criação de novas unidades de conservação, aumentando a área protegida deste bioma, assim como a melhoria da gestão das já criadas são metas do MMA, por meio do Núcleo do Bioma Caatinga. Na última reunião do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), órgão colegiado do MMA, em agosto passado, em Brasília, foi aprovada a resolução sobre a metodologia adotada no País. No texto-base, é definida a metodologia para recuperação das APPs, consideradas de interesse social pelo Código Florestal. "A resolução, caso aprovada, será um instrumento na mão do produtor rural para que ele possa fazer a recuperação das áreas de preservação permanente sem burocracia", explicou o diretor do Departamento de Florestas do Ministério do Meio Ambiente, João de Deus Medeiros. A ideia é que aconteçam, voluntariamente, ações de restauração e recuperação de APP. De acordo com o texto, a recuperação de APP poderá ser feita por três métodos: condução da regeneração natural de espécies nativas; plantio de espécies nativas; e plantio de espécies nativas conjugado com a condução da regeneração natural de espécies nativas.

MAIS INFORMAÇÕES

Polo Audiovisual

Santa Rita - (88) 3657.1015/ (88) 9972.9551 e Conselho Municipal do Meio Ambiente - (88) 9947.9899

Silvânia Claudino
Repórter

MEIO AMBIENTE E AS ELEIÇÕES.

Clóvis Cavalcanti
Economista ecológico e pesquisador social


No dia 9 deste mês, meu aluno da disciplina (Meio Ambiente e Sociedade) que leciono em Ciências Ambientais da UFPE, Rafael Figueirôa Ferreira, faleceu vitimado por um tipo letal de lepstopirose. Francamente, não é para se morrer hoje em dia de um mal como esse associado a más condições ambientais. Na verdade, a infecção que matou uma excelente pessoa que ficou próxima a mim se deve à ineficácia ou inexistência de redes de esgoto e de drenagem de águas pluviais, à coleta de lixo inadequada e a alagamentos de ruas no período de chuvas. Em situações de impróprios cuidados com o meio ambiente, frutificam condições propícias à alta incidência das doenças infecciosas. Quando isso ocorre num contexto fora da extrema pobreza, é para se pensar na precariedade em que vivem as populações menos afortunadas. Populações essas que, malgrado o discurso do resgate da pobreza de número considerável de brasileiros em época recente, continua vivendo com padrões inadmissíveis de bem-estar. Nesse sentido, vale lembrar que, na definição do economista Amartya Sen (Prêmio Nobel de 1998), a pobreza é privação de capacidades básicas. Assim, como escreveu recentemente o prof. José Eli da Veiga, da USP, “ela jamais deveria ser medida apenas com estatísticas de insuficiência de renda. É pobre mesmo quem tem renda superior ao critério de corte (‘linha de pobreza’) se não puder convertê-la em vida decente. Por falta de saúde ou de educação ou outras carências”.

Em 2009, no Brasil, 41% dos domicílios não possuíam saneamento básico. Não passaria de “pura ilusão, portanto, supor que não sejam pobres pessoas que padeçam dessa catastrófica privação que é o permanente risco de contrair parasitoses, só porque ganham mais de meio salário mínimo” – conforme salienta José Eli da Veiga no jornal Valor de 21.9.2010. Para Veiga, “Chega a soar como propaganda enganosa o uso do tosco critério de renda monetária para dizer que a pobreza está despencando. Encobre a inépcia dos governos em enfrentar o desafio do saneamento”. Pois foi por aí que Rafael, que não fazia parte da categoria que o governo se jacta de haver extraído da extrema pobreza, se contaminou mortalmente. Seu caso ilustra um problema que alcança a classe média, passando, evidentemente, em proporções mais trágicas pelos excluídos da sociedade. Esses que vivem da “bolsa família” – um programa que, se tem méritos para suavizar o quadro de miséria da população, constitui também uma medida de sua exclusão. Foi o meio ambiente mal saneado e mal gerido da cidade que permitiu à bactéria Leptospira interrogans executar seu plano destruidor.

Quadro semelhante é retratado pelo distinguido colunista do New York Times, Nicholas D. Kristof, em artigo de 3.9.2010, falando da salmonela nos Estados Unidos. Sua presença na cena americana deve-se ao péssimo meio ambiente inventado para a criação de galinhas de granja. Ao mesmo tempo em que mandam frango barato para os supermercados, as granjas, que não passam de fábricas de carne e ovos, “transferem custos de saúde para o público – sob a forma da salmonela ocasional, de doenças resistentes a antibióticos, de águas poluídas, envenenamento de alimentos e possivelmente certos cânceres”. A expansão agrícola em grande escala acontece, segundo Kristof, com pouco reconhecimento dos seus impactos negativos. “Produzir comida barata é tudo”, conclui ele. É com essas preocupações que causa enorme desconforto voltar, no YouTube, a ouvir da então ministra Dilma Rousseff, falando em público, em Copenhague, em dezembro de 2009, que “O meio ambiente é, sem dúvida nenhuma, uma ameaça ao desenvolvimento sustentável. E isso significa que é uma ameaça para o futuro do nosso planeta e do nosso país”. Fazer o quê com o meio ambiente? Afastá-lo do caminho, já que ele é “ameaça”? Será isso o que nos espera?

Postado por Clóvis Cavalcanti às 19:37

Aventura Selvagem em Cabaceiras - Paraíba

Rodrigo Castro, fundador da Associação Caatinga, da Asa Branca e da Aliança da Caatinga

Bioma Caatinga

Vale do Catimbau - Pernambuco

Tom da Caatinga

A Caatinga Nordestina

Rio São Francisco - Momento Brasil

O mundo da Caatinga