IHU On-Line – O senhor está
lançando este livro sobre a transposição do Rio São Francisco. Quais os
aspectos positivos e negativos do projeto?
João Suassuna – O São Francisco é um rio com múltiplos usos,
mas já houve prioridades dos usos ao longo do tempo. É um rio que tem um
potencial gerador de energia elétrica importantíssimo. 95% da energia que é
gerada no nordeste são do São Francisco. Ele também tem um potencial de
irrigação muito importante. Nas margens do rio, temos cerca de um milhão de
hectares para serem irrigados, dos quais 340 mil já estão irrigados, mas já há
um uso muito conflituoso entre esses usos. Para termos uma ideia, em 2001, o
Rio São Francisco correu com pouca água, e tivemos que
racionar a energia no nordeste, onde a coisa foi mais grave, pois as
autoridades adotaram os feriadões, já que não havia volume suficiente no rio
para gerar energia elétrica. Existe um conflito enorme entre o uso da água do
São Francisco para gerar energia e para irrigar. O projeto da
transposição
do Rio São Francisco vai utilizar esses volumes para abastecer 12
milhões de pessoas no nordeste. Então, se já há um conflito, fisicamente será
impossível a retirada desses volumes para o abastecimento do povo.
Estou envolvido com essas questões há 15 anos, isso gerou uma quantidade grande
de artigos, tenho cerca de 80 artigos publicados e circulando na Internet.
Sabemos que o centro-sul do país desconhece totalmente a existência do projeto,
não sabe nem do que se trata. Afirmo isso, pois participei de uma caravana, em
2008, que visitou onze capitais brasileiras, discutindo esse projeto. Da Bahia
para baixo, o que observamos é que ninguém estava sabendo absolutamente nada
sobre esse projeto. Reuni os 80 artigos que escrevi sobre o tema
e transformei-os em um livro. Temos a ideia de divulgar esse livro para o
centro-sul do país, para começar a esclarecer ao pessoal do sul a existência
desse projeto. Uma coisa interessante é que, quando chegar a hora de pagar essa
conta, todos irão pagar, do Oiapoque ao Chuí, pois fazemos parte de uma
federação.
IHU On-Line – Qual a situação atual das obras de transposição
do rio São Francisco?
João Suassuna – Os eixos leste e norte do projeto, que vão
retirar água do São Francisco, da represa de Itaparica e de Cabrobró, em Pernambuco,
e levar essa água para o setentrional nordestino, na Paraíba, Rio Grande do
Norte e Ceará, para abastecer as principais represas do nordeste, já estão com
as construções bem adiantadas. Estes canais irão ter 25 metros de largura, 5
metros de profundidade e algo em torno de 700 km de extensão. No final de 2010,
com o fim do
governo Lula, ele promete que a água do eixo
leste chegue à Paraíba. O eixo norte, cuja água será retirada de Cabrobró e vai
para o Ceará, será concluído lá por 2012. Essa é a estimativa das autoridades.
IHU On-Line – Até esse momento, quais são os impactos sociais,
econômicos e ambientais que a obra já causou?
João Suassuna – Os eixos estão saindo do nordeste, numa região
semiárida, onde já foram identificados alguns núcleos de desertificação. No
núcleo de
Cabrobró, por exemplo, já existe um deserto
praticamente formado, isso pela retirada da vegetação da caatinga para o
fabrico de carvão. O que o exército brasileiro está fazendo com a construção
dos canais naquele ponto é agravar o processo de desertificação que já está em
curso. Este será um impacto crucial, e inclusive já está acontecendo.
Futuramente, teremos impactos na geração de energia e na qualidade da água que
irá chegar ao nordestino. A água do São Francisco hoje está muito ruim, em
termos de qualidade biológica. Para termos uma ideia, a cidade de
Januária,
no norte de Minas, está à margem do Rio São Francisco, e sua população bebe
água de poços tubulares, cavados pela prefeitura local, pois a qualidade da
água do rio está imprópria para o consumo humano. É com essa água, com essa
qualidade, que querem abastecer as principais represas do nordeste. Se fizerem
isso, levarão um problema de saúde pública enorme. Teremos problemas de
hepatite, esquistossomose, xistossomose, entre outras doenças veiculadas pela
água.
IHU On-Line – As obras de revitalização do S. Francisco,
conforme o prometido, estão em andamento?
João Suassuna – Isso é uma falácia. Inclusive, o programa de
revitalização deveria ser a “menina dos olhos” do
governo Lula,
e não está sendo. O
governo Lula deveria apostar todas as suas
fichas na revitalização, no replantio de árvores e na reconstrução de matas
ciliares, que não existem mais. O São Francisco é um rio de barranco, e um rio
sem mata ciliar sofre com um desabarranqueamento natural, e esse material será
carreado para a calha do rio, irá assorear tudo, irá impedir a navegação, como
já está impedindo, e irá diminuir a vazão do rio. Deve haver um trabalho sério
no tratamento dos esgotos, que estão sendo lançados in natura para dentro da
calha do rio. O
governo Lula deveria estar apostando todas
suas fichas neste tipo de obra e não está. No Orçamento Geral da União, no ano
passado, foram reservados um bilhão de reais para o projeto da
transposição do Rio São Francisco. Para a revitalização, 100
milhões, dez vezes menos. Não consigo acreditar num programa desses.
IHU On-Line – E aí entram projetos de saneamento básico?
João Suassuna – Existem muitas cidades na orla do São
Francisco onde já se começou alguma coisa neste sentido. É um trabalho que está
sendo iniciado agora, mas já existe uma preocupação. Porém, a bacia do São
Francisco são 640 mil km². Existem trabalhos pontuais e que precisam ser
acelerados e implementados, pois ainda é feito muito pouco.
IHU On-Line – Existem alternativas à transposição?
João Suassuna – Existem sim. O próprio governo federal
apresentou esse tipo de alternativa através de um trabalho da
Agência
Nacional de Águas (ANA), que editou em dezembro de 2006, o
Atlas
Nordeste de Abastecimento Urbano de Água. O governo e as autoridades
mostram que é possível resolver os problemas de abastecimento de município com
até cinco mil habitantes, com água de boa qualidade, que já existe na região
nordeste. Temos 70 mil represas no nordeste, que acumulam um potencial de cerca
de 37 bilhões de metros cúbicos de água. É o maior volume represado em regiões
semiáridas do mundo. Existem regiões sedimentares onde é possível perfurar
poços e obter água de subsolo. Tudo isso está sendo previsto pela
ANA,
que colocou isso no
Atlas Nordeste, para resolver os problemas
de 34 milhões de pessoas no Nordeste. Inclusive, é um programa bem mais
abrangente do que o da
transposição do Rio São
Francisco, que visa o abastecimento de água para apenas 12 milhões de pessoas,
e com a metade dos custos previstos pelo programa da transposição. Para a
transposição, está previsto um custo de 6,6 bilhões de reais, na primeira fase.
O
Atlas Nordeste prevê a metade disso, 3,3 bilhões de reais,
para ter um programa de abastecimento bem mais abrangente, abastecendo cinco
vezes mais pessoas no nordeste.
Porém, também temos uma população que chamamos de difusa, falo algo em torno de
10 milhões de pessoas, que vivem nos pés de serra, nos sítios e nos pequenos
vilarejos. Para esse tipo de população, a solução é através de um programa que
está sendo desenvolvido pela Articulação no Semi-Árido Brasileiro, a
ASA
Brasil, uma ONG que congrega 600 outras ONGs que trabalham a
convivência com o semiárido. Essas ONGs estão propondo alternativas
interessantes de abastecimento através de barragens subterrâneas e de cisternas
rurais. Só de tecnologias na área hídrica, a ASA Brasil tem mais de quarenta. O
trabalho da ASA Brasil resolveria os problemas dessas populações difusas do
nordeste. Nossa visão é que, para a solução dos problemas de abastecimento do
povo nordestino, teríamos que contar, necessariamente, com o trabalho da ANA e
da ASA Brasil.
A
transposição do São Francisco seria desnecessária para o
nordeste. Não tem o menor sentido, tendo água na região, abdicar o uso dessa
água e ir buscar água do São Francisco, há 500 km do local de consumo. Isso
mostra que a água do
São Francisco, ao cair nas principais represas do nordeste,
será utilizada no agronegócio, na criação do camarão e no uso industrial.
No
Porto de Pecém, em Fortaleza, está sendo construída a
Ceará
Steel, uma siderúrgica que, sozinha, irá demandar volumes equivalentes
ao consumo de um município de 90 mil habitantes. Se a água do São Francisco
cair nas principais represas do nordeste, não terá o uso de abastecimento do
povo, que é o mais necessitado. Hoje, esse povo, que está sendo abastecido por
frotas de caminhões pipa, vai continuar assim. É aí que reside a indústria
da seca.
IHU On-Line – A resistência contra a obra cessou?
João Suassuna – Não acabou não, a resistência continua, e essa
situação irá se agravar porque, neste ano, teremos eleições. É possível que os
candidatos utilizem essa obra como a panacéia da solução de
tudo, e não será. Nossa preocupação é essa, é que isso sirva como moeda de
troca para voto. Isso, certamente, irá acontecer. Eles irão centrar as
campanhas no nordeste para o abastecimento das pessoas, e utilizarão como pano
de fundo o projeto da transposição. Mas sabemos que isso será um engodo, porque
o abastecimento das populações não irá se proceder com esse projeto, que vai se
utilizar da água para o agronegócio.
IHU On-Line – Em sua opinião, quem vai se beneficiar com a
transposição do São Francisco?
João Suassuna – Os beneficiários da transposição do São
Francisco serão as empreiteiras, os industriais, o grande capital. O povo está
sendo iludido, não terá acesso a uma gota d’água sequer da transposição. Não
está claro no projeto como essa água sairá das grandes represas para abastecer
o povo. Está claro que a água irá caminhar nos 700 km de canais e abastecerão
as principais represas do nordeste, para promover aquilo que as autoridades
estão chamando de sinergia hídrica, que é a forma dessas represas não virem a
secar. Mas essas represas foram dimensionadas para nunca secarem, porque elas
têm volumes suficientes para aguentarem secas sucessivas, mesmo com o uso
continuado de suas águas.
IHU On-Line – O senhor considera que essa obra aumentará no
futuro a popularidade de Lula no Nordeste ou funcionará ao contrário, ficará
como uma herança maldita do seu governo?
João Suassuna – Do jeito que está sendo construída, ela está
sendo orientada ou divulgada para resolver o problema de abastecimento do povo.
Futuramente, quando o povo começar a raciocinar no sentido de as
águas do São Francisco estarem sendo utilizadas para o
agronegócio, e não para o abastecimento, haverá uma espécie de revolta popular
no nordeste.